Material, acabamento e adequação ao ambiente ajudam a entender o que está por trás do orçamento antes de decidir quanto vale a pena pagar
Dois projetos de móveis planejados podem parecer praticamente iguais e chegar ao consumidor com preços muito diferentes. Diante dos orçamentos, é natural olhar primeiro para o valor final. Mas é justamente antes dele que podem estar as informações mais importantes para descobrir qual proposta vale mais a pena.
A decisão ganha relevância em um momento de reação das vendas do setor. Em maio de 2026, o varejo brasileiro de móveis e colchões comercializou aproximadamente 36,4 milhões de peças, alta de 15,3% em relação a abril. Em valores, o avanço mensal foi de 15,6%, segundo a Conjuntura de Móveis, estudo desenvolvido pelo IEMI para a Associação Brasileira das Indústrias do Mobiliário (ABIMÓVEL).
Ao mesmo tempo, as redes sociais ampliaram o acesso a referências de decoração, design e planejamento de ambientes. É possível chegar a um orçamento sabendo exatamente a cor, o desenho e o estilo desejados. O que uma imagem dificilmente mostra é como aquele móvel foi construído e se os materiais escolhidos são adequados ao uso que terá.
Com mais de duas décadas de experiência no setor, Laércio Carlos Marchioni Filho, empresário e especialista em móveis planejados de alto padrão, começou a trabalhar ainda jovem na fábrica do pai e acompanhou mudanças nos materiais e nas formas de fabricação. Para ele, preço mais alto, sozinho, não é garantia de qualidade. “Nem sempre o mais caro é o melhor. Dois móveis podem parecer iguais quando estão prontos, mas terem diferenças importantes na forma como foram construídos. É preciso entender o material e principalmente o acabamento antes de comparar apenas o preço”, explica.
Para saber se dois orçamentos são realmente comparáveis, o consumidor precisa entender o que será usado no projeto e como o móvel será executado. Um dos pontos está no acabamento das bordas. Em muitos móveis produzidos em MDF, as extremidades recebem fitas próprias para acabamento. Laércio explica que existem outras formas de execução, como junções feitas com cortes em 45 graus, que reduzem a percepção das emendas.
É uma diferença que pode passar despercebida para quem observa apenas a imagem do projeto. Por isso, diante de propostas com valores distintos, vale perguntar qual material será utilizado e como serão feitos os acabamentos. Só depois dessas respostas o preço começa a ganhar contexto.
Também não basta saber que o projeto será feito em MDF. É preciso entender onde e como o material será utilizado. Um closet e um gabinete de cozinha, por exemplo, ficam expostos a condições diferentes. Na cozinha e no banheiro, encanamentos, umidade e eventuais vazamentos aumentam o risco de contato do mobiliário com água. “Se eu monto um closet em MDF, não tem problema. Agora, cozinha e banheiro exigem outra análise porque existe umidade, encanamento e possibilidade de vazamento. O material precisa ser pensado de acordo com o lugar onde será utilizado”, afirma o especialista. A pergunta deixa então de ser apenas ‘qual material vocês usam?’ e passa a ser ‘o que será usado neste ambiente e por quê?’.
A qualidade do resultado também pode depender de uma decisão tomada muito antes da instalação. Em construções e reformas, planejar o mobiliário com antecedência ajuda a integrar o projeto ao restante da obra. Marchioni conta que costumava acompanhar projetos desde etapas iniciais para alinhar medidas e indicar previamente a posição de instalações elétricas e hidráulicas.
Uma torre com forno e micro-ondas depende de tomadas nos lugares corretos. Uma geladeira com entrada de água exige um ponto hidráulico compatível. Quando mobiliário e obra são pensados separadamente, a incompatibilidade pode aparecer somente na hora da instalação.
Antes de olhar novamente para o preço, vale colocar os orçamentos lado a lado e tentar responder: Sei qual material será usado em cada ambiente? Sei como serão feitos os acabamentos? Consigo identificar alguma diferença concreta que explique por que uma proposta custa mais? Se essas respostas não estiverem claras, ainda falta informação para decidir.
O orçamento mais barato pode não ser o melhor negócio. O mais caro também não. A diferença está em saber exatamente o que cada um está entregando antes de escolher quanto pagar.
SOBRE
Laercio Carlos Marchioni Filho é empresário e especialista em móveis planejados de alto padrão, com mais de 20 anos de experiência no setor moveleiro. Atua em todas as etapas da marcenaria, do desenvolvimento à fabricação e instalação, com conhecimento técnico em materiais, ferragens, acabamentos e soluções personalizadas para projetos residenciais e comerciais.
foto: divulgação


