Avanços em neurociência revelam por que lapsos cognitivos não devem ser normalizados e como intervenções precoces podem fazer diferença
Durante muito tempo, queixas cognitivas associadas à menopausa foram tratadas como subjetivas, exageradas ou simplesmente parte inevitável do envelhecimento. Esquecimentos frequentes, dificuldade de concentração, sensação de lentidão mental e lapsos de linguagem (o que muitas mulheres descrevem como “névoa mental”) raramente recebiam atenção clínica estruturada. Hoje, esse cenário começa a mudar.
Estudos recentes em neurociência mostram que a menopausa não é apenas um evento ginecológico, mas um processo sistêmico, com impacto direto sobre o cérebro. “A menopausa atua em praticamente todos os órgãos, e o cérebro é um dos mais sensíveis a essa transição hormonal”, explica a endocrinologista e PhD Alessandra Rascovski, autora do livro Atmasoma – O equilíbrio entre a ciência e o prazer para viver mais e melhor.
Segundo dados do IBGE, cerca de 17 milhões de brasileiras estão no climatério, fase de transição que antecede a menopausa, e aproximadamente 9,2 milhões já vivem a menopausa. Ainda assim, o tema segue cercado por desinformação e normalização do sofrimento.
Uma pesquisa nacional conduzida pela Ipsos (2025) reforça esse cenário: 50% das mulheres relataram que seus sintomas foram tratados como exagero ou “coisa da idade”, e 44% não realizam nenhum tipo de tratamento, mesmo quando o impacto físico, emocional e cognitivo é significativo.
O que a ciência chama de “névoa mental”
Do ponto de vista científico, a chamada “névoa mental” refere-se a queixas cognitivas reais, frequentemente observadas e mensuráveis em testes neuropsicológicos. Elas envolvem, principalmente, alterações da atenção focada, da memória recente (como esquecer o que ia fazer ou dizer), da fluência verbal e da velocidade de processamento mental. Esses sintomas tendem a se intensificar durante a transição menopausal, período marcado por flutuações hormonais importantes.
“O estrógeno não é apenas um hormônio reprodutivo. Ele regula áreas centrais do cérebro, como o hipocampo, envolvido nos processos de memória, além de influenciar circuitos relacionados ao estresse, à regulação emocional e à temperatura corporal”, explica Rascovski.
Pesquisas lideradas pela neurocientista Lisa Mosconi, da Weill Cornell Medicine, em Nova York, utilizando neuroimagem multimodal, sugerem que, durante a transição menopausal, ocorrem mudanças em redes cerebrais e em marcadores ligados à sinalização estrogênica, especialmente em regiões relacionadas à memória e à atenção. Em linguagem figurada, é como se o cérebro feminino se tornasse mais sensível à queda do estrógeno, uma espécie de “fome de estrógeno”.
Clinicamente, os primeiros sinais costumam ser sutis, mas persistentes. “Muitas mulheres relatam dificuldade de encontrar palavras (anomia), queda da atenção focada e, em alguns casos, sensação de raciocínio mais lento. Não é demência, mas também não é algo imaginário”, afirma a médica.
Ondas de calor intensas e frequentes também entram nessa equação. Estudos observacionais sugerem associação entre fogachos severos e pior desempenho cognitivo ou maior risco de declínio cognitivo no futuro, possivelmente mediado por alterações do sono e aumento do estresse. Embora a terapia hormonal não seja recomendada para prevenir demência, há forte base neurobiológica para o papel neuroprotetor do estrógeno, com efeitos em plasticidade sináptica, energia neuronal e inflamação, o que ajuda a explicar por que tratar bem os sintomas pode melhorar também o desempenho mental no dia a dia.
Terapia hormonal: o que mudou na leitura científica
A terapia de reposição hormonal (TRH) passou por décadas de controvérsia, especialmente após interpretações iniciais do estudo Women’s Health Initiative (WHI), no início dos anos 2000. Desde então, análises mais refinadas e novas pesquisas ajudaram a reposicionar o tema.
Hoje, sociedades médicas internacionais reconhecem a TRH como padrão ouro para o tratamento dos sintomas da menopausa, quando bem indicada e iniciada no momento adequado. Uma pesquisa da Editora Abril (2024) mostrou que 75% das mulheres que utilizaram TRH relataram melhora significativa da qualidade de vida. Ainda assim, segundo a Ipsos, 53% das mulheres nunca tiveram essa opção apresentada por seu médico.
“O que a ciência mostra é a importância da chamada ‘janela de oportunidade’”, explica Rascovski. “Quando a terapia é iniciada nos primeiros anos após a menopausa, os efeitos sobre ossos, sistema geniturinário e, possivelmente, sobre o cérebro são mais favoráveis. Iniciar muito tardiamente não oferece os mesmos benefícios.”
Estudos de neuroimagem sugerem que, durante a transição menopausal, há mudanças na atividade de estrógeno no cérebro, incluindo alterações na densidade dos receptores, que podem estar relacionados às queixas cognitivas observadas nesse período.
Isso não significa que a terapia hormonal seja indicada para todas as mulheres ou usada como prevenção de demência. “Ela deve ser discutida de forma individualizada, considerando sintomas, riscos, histórico clínico e preferências da paciente. Informação qualificada é parte essencial do cuidado”, ressalta a endocrinologista.
Cérebro, hormônios e estilo de vida: uma equação integrada
A ciência atual também reforça que a cognição na menopausa não depende apenas dos hormônios. Fatores como sono, estresse crônico, resistência à insulina, inflamação sistêmica, alimentação e atividade física modulam diretamente a saúde cerebral.
“Excesso de açúcar, por exemplo, está associado a maior resistência insulínica e pode interferir nos mecanismos de limpeza cerebral da proteína beta-amiloide, relacionada ao Alzheimer”, explica Rascovski. Segundo um estudo publicado na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences, é mostrado ainda que a atividade física regular está associada a aumento do volume do hipocampo e melhora da função cognitiva.
O sono tem papel central nesse processo. Durante o descanso profundo, o cérebro ativa o chamado sistema glinfático, responsável pela remoção de resíduos metabólicos tóxicos. “Dormir mal compromete diretamente esse mecanismo de ‘faxina cerebral’”, afirma.
Ainda assim, a médica faz um alerta importante: estilo de vida adequado não impede completamente os sintomas da menopausa. “Muitas mulheres fazem tudo ‘certo’ e ainda assim sofrem. Isso não é falha pessoal. O corpo feminino passa por transições biológicas reais.”
Para a especialista, o caminho está na combinação entre acompanhamento médico precoce, avaliação criteriosa de deficiências associadas (como ferro, vitamina B12, disfunções tireoidianas, entre outros), cuidado emocional e, quando indicado, terapia hormonal.
“A menopausa não precisa ser vivida como perda de capacidade cognitiva ou identidade. O cérebro feminino é plástico, adaptável e responsivo ao cuidado certo. O que precisamos é parar de normalizar o sofrimento e começar a escutá-lo”, conclui Rascovski.
Sobre a Atma Soma
Liderada pela endocrinologista Alessandra Rascovski, autora do livro Atmasoma: o equilíbrio entre a ciência e o prazer para viver mais e melhor – a clínica tem foco na prática da medicina de soma, unindo várias especialidades em prol dos pacientes, respeitando a sua individualidade e oferecendo a eles uma vida longa e autônoma.
A clínica conta com um time de médicos e profissionais assistenciais de diversas áreas, como endocrinologia, urologia, ginecologia, nutrição, gastroenterologia, geriatria, dermatologia, estética, medicina oriental e ayurveda, com olhar dedicado à prática do cuidado focado no eixo neurocognitivo, metabólico e hormonal.
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