Para Tamara Lorenzoni, estrategista de marcas de luxo, fenômeno mostra que novas gerações estão mais interessadas no símbolo e na expressão individual do que na ostentação tradicional
Uma bolsa de plástico transparente, colorida e inspirada em um dos maiores símbolos do mercado de luxo se tornou um dos acessórios mais comentados nas redes sociais. Batizada de Jelly Firkin, em uma brincadeira com o nome da icônica Birkin, da Hermès, a peça ganhou força especialmente entre usuários da Geração Z no TikTok e passou a aparecer em vídeos de unboxing, produções de moda e conteúdos de personalização. A tendência, que ganhou força inicialmente na Coreia do Sul, voltou a repercutir internacionalmente nesta semana. A diferença de preço ajuda a explicar o fenômeno. Enquanto uma Birkin original pode ultrapassar os R$ 200 mil, dependendo do modelo, material e mercado, as versões Jelly Firkin são encontradas por algumas centenas de reais. Feitas principalmente de PVC ou TPU, elas reproduzem elementos visuais facilmente reconhecíveis da bolsa da Hermès, mas assumem uma estética propositalmente divertida, colorida e nostálgica, associada à estética Y2K.
Para Tamara Lorenzoni, estrategista de marcas de luxo, o fenômeno revela uma mudança importante na maneira como as novas gerações enxergam o mercado de alto padrão. “A Geração Z não necessariamente quer comprar o símbolo tradicional do luxo para demonstrar status. Muitas vezes, ela quer reinterpretá-lo, brincar com ele e transformá-lo em uma extensão da própria personalidade. A Jelly Firkin é interessante justamente porque utiliza um código extremamente reconhecível do luxo, mas subverte completamente sua lógica de exclusividade”, explica.
A força da tendência também está diretamente ligada ao comportamento das redes sociais. O formato da bolsa é facilmente identificável em fotografias e vídeos, enquanto as versões coloridas funcionam como uma espécie de tela em branco para personalizações com chaveiros, fitas, correntes, bichinhos e outros acessórios. O resultado é um produto que se torna mais relevante pela capacidade de gerar identificação e conteúdo do que pelo valor material. Segundo Tamara, esse movimento não significa necessariamente que o consumidor jovem tenha deixado de desejar o luxo tradicional. “Existe uma diferença entre desejar uma marca e desejar aquilo que ela representa. A Birkin continua sendo um dos maiores símbolos de exclusividade do mundo, mas a Jelly Firkin mostra que o significado desse símbolo pode ser apropriado de outras maneiras. Para uma geração acostumada a construir identidade nas redes, participar de uma estética pode ser tão importante quanto possuir o produto original”, afirma.
O fenômeno também coloca as grandes marcas diante de um novo desafio: seus códigos visuais circulam em uma velocidade muito maior e podem ser reinterpretados, reproduzidos e ressignificados pela internet. A própria Birkin, que historicamente esteve associada à escassez e à dificuldade de acesso, passa a inspirar um produto que justamente elimina essas barreiras. Para a especialista, o episódio reforça que exclusividade não é mais o único elemento capaz de gerar desejo. “O luxo continua tendo na escassez, no artesanato e na história seus grandes pilares, mas hoje precisa disputar atenção em um ambiente em que a estética é compartilhada instantaneamente. A marca que entende como seu símbolo pode ser reinterpretado sem perder sua essência consegue transformar cultura em valor”, conclui.
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