Muito além da hidratação, a oleação une óleo, toque e observação do corpo; Nina Habib, terapeuta ayurvédica e fundadora da Taila Veda, explica por que diferentes bases e plantas são escolhidas para diferentes momentos
Quando a pele está seca, é comum pensar no óleo como uma forma de hidratação. No Ayurveda, porém, passar óleo no corpo não começa nem termina na pele.
A oleação faz parte de uma tradição de cuidado que atravessa milhares de anos e está relacionada ao toque, à automassagem, às qualidades das substâncias utilizadas e à observação do corpo. É por isso que, na visão ayurvédica, não basta perguntar qual óleo é “melhor”. A pergunta é: melhor para quem, em qual momento e sob quais condições?
“A pele também come. Essa frase acompanha o meu trabalho há muitos anos porque muda a maneira como a gente olha para aquilo que coloca sobre o corpo. Se existe tanto cuidado com o que escolhemos comer, por que não observar também aquilo que colocamos todos os dias sobre a nossa pele?”, explica Nina.
O óleo não é apenas um veículo
No Ayurveda, as substâncias são observadas também por suas qualidades. Quente ou refrescante, pesado ou leve, mais nutritivo ou mais estimulante: essas diferenças ajudam a compreender por que dois óleos vegetais não são considerados iguais simplesmente porque ambos são óleos.
O gergelim é um dos exemplos mais conhecidos. Tradicionalmente muito utilizado no Ayurveda, apresenta natureza aquecedora e nutritiva. Já o coco é reconhecido por sua natureza refrescante. Essa diferença aparentemente simples muda a lógica da escolha: em um período frio, seco ou de maior necessidade de nutrição, determinadas qualidades podem fazer mais sentido. Em outro momento, marcado por calor, uma preparação de natureza refrescante pode ser mais adequada.
“Eu não gosto da ideia de ter um óleo para a vida inteira simplesmente porque alguém disse qual é o seu dosha. O Ayurveda é observação. O que está acontecendo com a sua pele agora? Como está o clima? Existe calor? Secura? Peso? Em que momento você está? A escolha começa aí”, explica Nina.
Então, para que servem os doshas?
Vata, Pitta e Kapha são provavelmente alguns dos conceitos mais conhecidos do Ayurveda e também alguns dos mais simplificados.
Vata está relacionado principalmente aos elementos espaço e ar; Pitta, ao fogo e à água; e Kapha, à água e à terra. Mas isso não significa que descobrir o próprio dosha seja suficiente para escolher todos os cuidados que serão utilizados dali em diante.
Na prática, o Ayurveda observa também as qualidades que estão aumentadas naquele momento. Uma pessoa pode ter determinada constituição e, ainda assim, atravessar um período de maior secura. Em outra estação ou fase da vida, pode perceber mais calor, oleosidade, peso ou sensibilidade. Por isso, a escolha de uma preparação pode mudar.
“Para mim, conhecer o Ayurveda não deveria fazer uma pessoa depender mais de uma regra. Deveria ensinar essa pessoa a observar melhor. O que meu corpo está pedindo hoje? Essa pergunta é muito mais interessante do que simplesmente repetir o mesmo ritual o ano inteiro”, afirma Nina.
O toque também faz parte da prática
Existe ainda uma diferença importante entre simplesmente colocar óleo sobre a pele e realizar o Abhyanga. Abhyanga é a prática ayurvédica de massagem ou automassagem com óleo. Nesse momento, o produto não é aplicado apenas para permanecer sobre a superfície da pele: as mãos percorrem o corpo.
Braços, pernas, ventre, articulações e pés recebem atenção e, quando isso se repete, o toque também passa a ser uma forma de perceber o próprio corpo, identificando uma região que ficou mais seca, uma área mais sensível, uma mudança de textura ou um lugar que normalmente passa despercebido.
“O corpo precisa de toque tanto quanto precisa de alimento. O toque também é nutrição. E existe uma diferença enorme entre passar rapidamente um produto e realmente colocar as mãos sobre o próprio corpo”, explica Nina.
Isso não significa transformar o autocuidado em um ritual longo e impossível de manter. A quantidade de óleo, a frequência e o tempo dedicado ao Abhyanga podem ser adaptados à rotina e às necessidades de cada pessoa.
Por que existem tantos óleos diferentes?
Se as necessidades mudam, as preparações também podem mudar. É por isso que a tradição ayurvédica trabalha com diferentes bases vegetais combinadas a plantas, raízes e especiarias. A escolha da base já traz determinadas qualidades, enquanto os ingredientes utilizados no preparo acrescentam outras.
Na Taila Veda, essa lógica aparece em diferentes óleos corporais.
O Vata Shakti utiliza óleo de gergelim como base e foi pensado para momentos em que características relacionadas a Vata, como secura e excesso de movimento, estão mais presentes.
O Sopro de Vênus parte de uma base de óleo de coco TCM e de ingredientes de natureza mais refrescante, entrando em uma lógica diferente, especialmente quando o calor está mais presente.
Já o Kapha Oásis utiliza óleo de gergelim combinado a especiarias tradicionalmente associadas a qualidades mais aquecedoras e estimulantes.
A linha inclui ainda preparações como o Dashmool Taila, inspirado em uma combinação tradicional de raízes do Ayurveda, e o Shatavari, desenvolvido a partir de uma das plantas mais conhecidas da tradição ayurvédica quando o assunto é o cuidado feminino.
Mais importante do que decorar qual óleo pertence a qual dosha é compreender a lógica que existe por trás dessas diferenças.
O mesmo corpo não pede sempre a mesma coisa
A pele, o clima, a idade e a rotina mudam. O corpo de uma pessoa no inverno não necessariamente apresenta as mesmas necessidades no verão. E nem todas as pessoas que vivem na mesma estação apresentam as mesmas características. É justamente por isso que, no Ayurveda, o cuidado não precisa permanecer imóvel.
“Às vezes a gente procura uma rotina perfeita para repetir para sempre. O Ayurveda me ensinou justamente o contrário: observar tanto que você percebe quando alguma coisa precisa mudar”, afirma Nina.
A oleação corporal pode ser simples. Em alguns dias, pode significar uma automassagem mais longa. Em outros, alguns minutos de contato com o próprio corpo. O princípio permanece o mesmo: escolher conscientemente aquilo que será colocado sobre a pele e usar o toque também como uma forma de observação.
Dentro dessa tradição, óleo e toque permanecem associados justamente porque a escolha da formulação e a maneira como ela é aplicada fazem parte da mesma prática de cuidado.
“A pele também come, mas o corpo também sente o modo como é tocado. Para mim, a oleação começa quando essas duas coisas se encontram”, conclui Nina.
As práticas ayurvédicas podem integrar uma rotina de bem-estar e cuidado com a pele, mas não substituem avaliação ou tratamento médico. Pessoas com doenças de pele, inflamações, lesões ou alterações persistentes devem buscar orientação profissional antes de incorporar novos produtos à rotina.
Sobre Taila Veda
Fundada em 2018 por Nina Habib, a Taila Veda nasceu para traduzir a sabedoria da Ayurveda em rituais de cuidado para a vida contemporânea. Inspirada nos conhecimentos da medicina tradicional indiana, a marca desenvolve óleos ayurvédicos, cosméticos naturais e materiais educativos que convidam as pessoas a construir uma relação mais consciente com o corpo, respeitando seus ritmos e a inteligência da natureza.
A filosofia da Taila Veda parte da ideia de que o autocuidado não deve ser uma resposta apenas quando algo está em desequilíbrio, mas uma prática cotidiana de presença, observação e constância. Esse olhar deu origem a um dos principais conceitos da marca: “A pele também come”, que traduz a proposta de oferecer à pele o mesmo cuidado dedicado à escolha, à origem e ao preparo daquilo que nutre o corpo.
foto: divulgação


