Compartilhe:

O paisagista, engenheiro agrônomo e botânico Alexandre Galhego propõe um jardim aberto que respeita a história do Parque da Água Branca e convida os visitantes a desacelerar em meio à capital paulista sob a sombra de uma figueira centenária

Com o ritmo acelerado das grandes cidades onde estamos sempre entre um compromisso e outro, encontrar espaços que nos permitam desacelerar e apreciar o momento é quase um luxo. É a partir desta necessidade de reconexão que o paisagista Alexandre Galhego construiu sua primeira participação na CASACOR São Paulo 2026.

Implantado sob a sombra de uma figueira centenária no Parque da Água Branca, o ambiente nomeado Clareira na Mata, de 290 m², é inspirado nas clareiras que surgem naturalmente nas florestas, como uma abertura dentro da mata, e são quase como um convite natural para parar, olhar para si, respirar e observar o entorno.

Entre caminhos elevados, mais de 4.500 mudas e espaços voltados à contemplação, o visitante é conduzido por uma paisagem que propõe algo cada vez mais raro nas cidades: a possibilidade de permanecer.

Engenheiro agrônomo e mestre em Botânica, o profissional concebeu uma cuidadosa curadoria vegetal baseada não apenas na estética, mas sobretudo na adaptação das espécies às condições reais de luminosidade, solo e microclima daquela região.

A clareira como filosofia do projeto

Ao observar uma floresta, é possível perceber que as clareiras surgem de forma espontânea, como aberturas naturais em meio à vegetação densa que permite a entrada da luz. Por meio delas, revelam-se novas perspectivas da paisagem e espaços de permanência dentro da mata.

Para o profissional, foi essa dinâmica da natureza que serviu de inspiração para seu ambiente apresentado na CASACOR São Paulo 2026. “Uma clareira legítima não se trata de um espaço construído, mas um fenômeno natural que abre um respeito dentro da mata. Essa analogia com a vida contemporânea diz muito sobre as oportunidades em que podemos olhar para nosso entorno e avistar a luz que nos fará bem”, contextualiza Alexandre.

Ou seja, mais do que reproduzir uma clareira em seu sentido físico, o paisagista buscou traduzir o significado que ela carrega, como um jardim de reconexão. A partir dessa premissa, ele organizou o espaço em diferentes núcleos de convivência distribuídos ao longo de um percurso com vegetação composta, principalmente, por filodendros, monsteras, íris e outras espécies tropicais organizada em camadas e diferentes alturas tal qual um verdadeiro abraço verde ao redor dos espaços. Sem recorrer ao excesso de cores ou floradas sazonais, o projeto valoriza as texturas, volumes e tonalidades de verde.

Um projeto construído a partir daquilo que já existia

Ao percorrer o jardim, o visitante é conduzido por um deck elevado que serpenteia suavemente entre a vegetação. O percurso revela três diferentes áreas de permanência: a primeira convida à observação da paisagem; a segunda oferece um espaço mais intimista para conversas e contemplação; e a terceira, equipada com sofás e poltronas, funciona como um verdadeiro estar ao ar livre, salientando um ambiente acolhedor para permanecer sob as árvores.

Se a sensação transmitida é de naturalidade, isso não aconteceu por acaso. Um dos maiores desafios do projeto relatado pelo profissional foi justamente o de intervir em uma área de enorme relevância ambiental sem comprometer as características originais, já que uma vez que localizado dentro do simbólico e tombado Parque da Água Branca, a vegetação arbórea possui proteção especial e integra o patrimônio paisagístico e ambiental do conjunto.

Então, ao invés de impor uma nova paisagem, Alexandre Galhego optou por desenvolver uma intervenção de perfil discreto e que se integra ao ambiente existente de forma quase imperceptível. “Nosso objetivo nunca foi o de gerar um cenário temporário. Pelo contrário, queríamos que o jardim dialogasse com a história do parque e contribuísse para sua evolução ao longo do tempo”, afirma.

Para tanto, nenhuma árvore e vegetação foram removidas. A figueira centenária, elemento mais emblemático do espaço, se tornou o ponto de partida para toda a composição. Já parte da vegetação arbustiva existente passou por um cuidadoso processo de transplante, sendo reposicionada em áreas do próprio parque que necessitavam de recuperação. Após o encerramento da mostra, novas espécies também permanecerão contribuindo para o fortalecimento paisagístico do local.

A preocupação com a preservação chegou até mesmo à construção do percurso. Como o solo não poderia sofrer intervenções agressivas, o deck foi planejado dentro de um sistema suspenso, como uma ponte, apoiado sobre estruturas pontuais que acompanham naturalmente o relevo existente.

Acompanhando o declive do terreno, em alguns trechos, as estações ficam a poucos 20 cm da base, enquanto em outros alcança cerca de 80 cm de altura, sempre respeitando as condições originais.

Produzido em eucalipto tratado, amplamente reconhecido por sua durabilidade em áreas externas, o deck tem a madeira proveniente de reflorestamento e foi meticulosamente idealizado para gerar o mínimo possível de descarte. Para tanto, a paginação das ripas foi tão cuidadosamente estudada que praticamente manteve o tamanho original das peças. “Essa atenção denota a abordagem sustentável presente em todas as etapas do projeto”, argumenta o profissional.

Botânica aplicada ao paisagismo

Mais de 4.500 mudas compõem a vegetação do Clareira na Mata e sua grande maioria está organizada em grandes cachepôs metálicos, em tonalidades de areia, integrados visualmente ao deck e às áreas plantadas.

Embora o jardim valorize espécies nativas, o projeto também incorpora exemplares exóticos de comportamento controlado e plenamente adaptados ao clima tropical, sempre priorizando o equilíbrio ecológico e a convivência harmoniosa com a vegetação existente. Entre elas estão variedades de filodendros e monstera, conhecidas pela excelente adaptação às áreas sombreadas sob árvores de grande porte

Já as íris, presentes em diversos pontos do projeto, estabelecem uma conexão direta com a vegetação original do espaço e, mesmo fora do período de floração, contribuem com textura, movimento e densidade ao conjunto vegetal. O resultado é um jardim que parece ter estado ali desde sempre.

Mais do que um ambiente expositivo, o Clareira na Mata apresenta uma reflexão sobre o paisagismo contemporâneo. Em vez de tramar cenários efêmeros, Alexandre Galhego propõe uma paisagem construída para permanecer, evoluir e acolher, como uma clareira que surge no meio da cidade para lembrar que desacelerar também pode ser um processo natural do viver.

Fornecedores:

Projeto luminotécnico: Estúdio Carlos Fortes – @estudiocarlosfortes

Iluminação: Interlight – @ interlight.oficial

Mobiliário: Pátio Brasil Móveis – @patiobrasilmoveis

Metais: Deca – @decaoficial

Elétrica: Marcio Roberto da Silva

Biribas: O Rei das Biribas

Materiais do Deck: Madeiras Moretto – @moretto_madeiras

Execução do Deck – Naldo Marceneiro

Sobre Alexandre Galhego Paisagismo

Alexandre Galhego é considerado referência em paisagismo contemporâneo. Engenheiro Agrônomo formado pela USP, mestre em biologia e botânica pela UNESP com mais de 30 anos de atuação em projetos de paisagismo residenciais e comerciais. Busca conversar e potencializar os processos naturais já instaurados no local. Usa a botânica como ponte entre o mundo natural e o espaço vivo. O resultado são belos projetos executados por diversos estados do Brasil como paisagens vivas, funcionalmente equilibradas, onde a interação entre espécies, arquitetura e o uso humano se estabelece de forma contínua no tempo. A fluidez de sua linha criativa demonstra intensa conexão com a arquitetura brasileira.

(19) 98214-4757

E-mail: contato@alexandregalhego.com.br

Instagram: @alexandregalhegopaisagismo

Site: www.alexandregalhego.com.br

fotos: Miti Sameshima

Somos um veiculo de comunicação. As informações aqui postadas são de responsabilidade total de quem nos enviou.