Especialista reforça a importância de hábitos saudáveis, prevenção, acompanhamento médico e vínculos sociais para preservar autonomia e qualidade de vida
Chegar aos 60, 70 ou 80 anos com saúde, autonomia e qualidade de vida é uma realidade cada vez mais presente no Brasil. O envelhecimento da população, os avanços da medicina e a maior conscientização sobre hábitos saudáveis têm transformado a forma como a sociedade encara o passar dos anos.
Dados do IBGE mostram que, em 2022, o país contabilizava 32,1 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, o equivalente a 15,6% da população. Em 12 anos, esse contingente cresceu cerca de 56%. A expectativa de vida dos brasileiros também atingiu 76,6 anos, enquanto o número de pessoas com 65 anos ou mais aumentou 57,4% no período. Os indicadores reforçam que viver mais já é uma conquista, mas o desafio é garantir que os anos adicionais sejam vividos com saúde e independência.
Segundo o médico de família e comunidade Eduardo Trevizoli Justo, o conceito de envelhecimento mudou nas últimas décadas. “Hoje, não falamos apenas em longevidade, mas em longevidade com qualidade. O objetivo não é simplesmente acumular anos de vida, mas garantir que esses anos sejam vividos com autonomia, disposição e bem-estar”, afirma.
Para o especialista, não existe uma fórmula única para envelhecer bem. Alimentação equilibrada, atividade física regular, sono de qualidade, controle de doenças crônicas, abandono do cigarro e consumo moderado de álcool estão entre os principais fatores de proteção. “O envelhecimento saudável começa muito antes da terceira idade. Cada escolha que fazemos hoje influencia diretamente a nossa saúde daqui a dez, vinte ou trinta anos. Nunca é tarde para mudar hábitos e colher benefícios”, destaca.
Acompanhamento contínuo ajuda a prevenir riscos
Além dos hábitos saudáveis, o acompanhamento médico regular contribui para a prevenção de doenças e a identificação precoce de alterações. Entre os cuidados recomendados estão o controle da pressão arterial, da glicemia e da hemoglobina glicada, a avaliação do colesterol e dos triglicerídeos, hemograma e exames das funções renal e hepática.
Conforme a idade, o sexo e os fatores de risco, também podem ser indicados exames para monitorar a saúde óssea e rastrear diferentes tipos de câncer, além de avaliações da visão, da audição e da carteira vacinal.
Perda de peso involuntária, quedas frequentes, alterações de memória ou comportamento, falta de ar aos esforços, dor no peito, mudanças persistentes no sono, tristeza, isolamento social, tonturas, desmaios e dificuldade para realizar atividades habituais são sinais que devem ser avaliados por um profissional.
Outro cuidado importante é manter exames, prescrições e medicamentos organizados, principalmente quando o paciente é acompanhado por diferentes especialistas.
“O acompanhamento contínuo evita exames desnecessários, permite identificar alterações precocemente e reduz riscos relacionados ao uso inadequado de medicamentos”, explica Trevizoli Justo.
O médico relata o caso de um idoso que utilizava diversos medicamentos prescritos por profissionais diferentes. Durante a revisão, foram identificados remédios que poderiam contribuir para tonturas e aumentar o risco de quedas. A reorganização do tratamento e o acompanhamento regular ajudaram a reduzir os riscos e melhorar a qualidade de vida.
Em outra situação, um paciente de 94 anos chegou ao consultório preocupado com a possibilidade de doenças graves. Os exames, porém, apontaram alterações nutricionais tratáveis.
“É comum encontrarmos idosos com deficiência de vitamina B12 ou vitamina D. Com o acompanhamento longitudinal, conseguimos identificar essas alterações e evitar consequências como fadiga, perda de força muscular e quedas”, comenta.
Cuidado também envolve ambiente e vínculos sociais
Na Medicina de Família e Comunidade, a avaliação não se limita aos exames e diagnósticos. O ambiente em que a pessoa vive, a presença de familiares ou cuidadores, as condições da moradia, a alimentação, o nível de atividade física, a situação financeira, a participação social e o uso correto dos medicamentos também influenciam a saúde.
“Muitas vezes, o problema não está apenas na doença. Há idosos com condições de saúde controladas, mas que vivem sozinhos, têm dificuldade para tomar os medicamentos ou estão expostos a riscos de queda dentro de casa. Avaliar o ambiente e a rede de apoio é tão importante quanto solicitar exames”, ressalta.
A manutenção dos vínculos sociais também é considerada essencial. O isolamento pode afetar a saúde física e mental, enquanto o convívio familiar, as amizades e a participação em atividades comunitárias ajudam a preservar a cognição, reduzir sintomas depressivos e ampliar a sensação de bem-estar.
“O ser humano é social. Pessoas que mantêm relações afetivas, participam da comunidade e permanecem intelectualmente ativas tendem a envelhecer melhor. Cuidar da saúde emocional é tão importante quanto controlar a pressão arterial ou o colesterol”, afirma.
Para Trevizoli Justo, o envelhecimento deve ser encarado como uma conquista coletiva. “Precisamos nos preparar para essa fase, investindo em prevenção, movimento, alimentação adequada, acompanhamento contínuo e conexões humanas. Assim, aumentamos não apenas a quantidade de anos vividos, mas também a qualidade desses anos”, conclui.
CRM/SC 35069 / RQE 28990
Foto de Marisa Howenstine na Unsplash


