Com a proximidade do verão e a popularização das canetas emagrecedoras, médicos alertam que a pressa para reduzir medidas pode aumentar o risco de perda muscular, deficiências nutricionais, alterações intestinais e mudanças no rosto
Outubro chega e, com ele, começa uma conhecida corrida contra o calendário. Faltando poucos meses para o verão, dietas extremamente restritivas, jejuns prolongados, desafios de internet e medicamentos para emagrecimento passam a aparecer como caminhos para quem deseja perder em poucas semanas os quilos acumulados ao longo do ano.
A diferença é que, agora, essa corrida ganhou um novo componente. Medicamentos como semaglutida e tirzepatida transformaram o tratamento da obesidade e possibilitaram resultados que até pouco tempo eram difíceis de alcançar apenas com as opções farmacológicas disponíveis. O avanço é importante, mas também trouxe um novo alerta aos consultórios: emagrecer mais rápido não significa necessariamente emagrecer melhor.
Para o endocrinologista Dr. Bruno Cardoso, titulado pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), o problema começa quando medicamentos desenvolvidos para tratar uma doença crônica passam a ser vistos apenas como ferramentas para acelerar a perda de peso.
“Semaglutida e tirzepatida representam uma mudança muito importante no tratamento da obesidade e podem proporcionar perdas de peso expressivas quando existe indicação e acompanhamento adequado. O que não podemos fazer é transformar essa eficácia em uma competição para descobrir quem emagrece mais rápido. Obesidade é uma doença crônica e o tratamento precisa considerar saúde metabólica, composição corporal, tolerabilidade, comorbidades e principalmente a capacidade de manter o resultado. A velocidade da balança, isoladamente, não é um marcador de sucesso terapêutico”, explica Bruno.
1. O peso cai, mas músculo também pode ir embora
Um dos principais pontos de atenção durante uma perda de peso expressiva é a massa magra. Quando a ingestão de alimentos cai significativamente, principalmente sem planejamento nutricional e exercício adequado, o organismo não perde exclusivamente tecido adiposo.
Para Dr. Renan Bosio, ortopedista, especialista em nutrologia e medicina do esporte, preservar músculos precisa fazer parte da estratégia desde o início.
“Quando alguém diz que perdeu dez ou quinze quilos, a primeira pergunta não deveria ser apenas em quanto tempo isso aconteceu, mas o que essa pessoa perdeu. O músculo está relacionado à força, mobilidade, metabolismo e independência funcional. Em uma perda acelerada, especialmente quando existe baixa ingestão proteica e ausência de treinamento de força, podemos ter uma redução de massa magra que não deveria ser ignorada. Emagrecimento de qualidade significa tentar reduzir predominantemente gordura enquanto protegemos o tecido muscular”, explica Renan.
2. Comer cada vez menos não significa potencializar o tratamento
A redução do apetite proporcionada por alguns medicamentos pode criar uma falsa impressão de que quanto menos o paciente conseguir comer, melhor será o resultado. Para Patrick Ferreira, presidente da Academia Brasileira de Clínica Médica, essa lógica pode comprometer a qualidade do emagrecimento.
“É uma armadilha acreditar que a ausência de fome significa que o organismo deixou de precisar de nutrientes. O paciente continua necessitando de proteína, vitaminas, minerais e energia suficiente para manter suas funções. Quando a alimentação se torna excessivamente reduzida e não existe estratégia para preservar a massa muscular, podemos produzir uma perda de peso numericamente impressionante, mas metabolicamente pouco interessante. O objetivo não é deixar o paciente cada vez mais leve a qualquer custo, mas fazê-lo perder gordura preservando saúde, força e funcionalidade”, alerta Patrick.
Proteína adequada e exercícios resistidos, como a musculação, ganham importância nesse cenário. A quantidade, entretanto, precisa ser individualizada de acordo com idade, composição corporal, condições clínicas e nível de atividade física.
3. O intestino também pode sentir os efeitos da pressa
Outro problema pode aparecer longe da balança. A redução da ingestão alimentar, o menor consumo de água e fibras e os efeitos gastrointestinais de determinadas medicações podem favorecer constipação em alguns pacientes.
A coloproctologista e cirurgiã geral Dra. Lorena Willers Coutinho (CRM-SP 172.373 | RQE 66.686) alerta que ignorar o intestino pode transformar um efeito adverso inicialmente manejável em um problema bastante doloroso.
“Alguns pacientes em uso de agonistas de GLP-1 apresentam redução importante do trânsito intestinal. Quando isso se soma à baixa ingestão de líquidos, fibras e alimentos em geral, as fezes podem ficar mais ressecadas e difíceis de eliminar. O esforço evacuatório excessivo pode favorecer fissuras anais, que provocam dor e sangramento e podem iniciar um ciclo em que o paciente evita evacuar por medo da dor, piorando ainda mais a constipação. O mais importante é não ter vergonha de relatar esses sintomas e não recorrer indiscriminadamente a laxantes sem orientação”, explica Lorena.
4. Resistência à insulina não justifica qualquer estratégia radical
A procura por emagrecimento rápido também vem acompanhada de autodiagnósticos metabólicos. “Metabolismo lento” e “resistência à insulina” aparecem frequentemente nas redes sociais como explicações para qualquer dificuldade de perder peso.
A endocrinologista Patricia Gracitelli (RQE 69887) ressalta que resistência à insulina existe e merece atenção, mas não pode ser transformada em justificativa para dietas radicais ou exclusão indiscriminada de nutrientes.
“Obesidade e dificuldade para emagrecer são multifatoriais. Resistência à insulina pode fazer parte desse contexto, especialmente quando existe excesso de gordura visceral, mas não podemos atribuir todo ganho de peso à insulina. Alimentação, composição corporal, atividade física, sono, genética, estresse e outras condições clínicas também precisam ser considerados. O objetivo deve ser melhorar a saúde metabólica, e não simplesmente fazer a balança cair rapidamente”, explica Patricia.
Dr. Vagner Chiapetti, médico com atuação em Endocrinologia e Nutrologia (RQE 45020), reforça que a investigação deve preceder qualquer tentativa de “corrigir” alterações metabólicas por conta própria.
“Existe uma tendência de procurar um exame alterado que explique toda a dificuldade para emagrecer. O paciente vê um conteúdo sobre resistência à insulina e imediatamente começa a cortar carboidratos, usar suplementos ou procurar medicamentos. A avaliação precisa ser mais ampla. Gordura visceral, glicemia, triglicerídeos, composição corporal, sono, alimentação, atividade física, histórico familiar e outras condições precisam ser considerados. O tratamento começa entendendo o que realmente acontece naquele organismo, e não copiando uma solução apresentada nas redes sociais”, afirma Chiapetti.
5. O “Projeto Verão” pode terminar em efeito sanfona
Para Gabriela Rossmam, médica com atuação em emagrecimento, a proximidade do verão cria um problema adicional: estabelecer uma data limite para o corpo mudar.
“Quando alguém decide que precisa emagrecer até dezembro, cria-se uma urgência que favorece estratégias difíceis de sustentar. A pessoa corta vários alimentos, reduz drasticamente as calorias e organiza uma rotina que consegue suportar por algumas semanas, mas não por meses ou anos. O melhor resultado não é aquele que aparece mais rápido para o verão, e sim aquele que consegue continuar existindo em janeiro, fevereiro e no restante do ano”, explica Gabriela.
Segundo a médica, começar antes pode ser positivo justamente porque reduz a necessidade de radicalização. Há mais tempo para ajustar alimentação, atividade física, sono e comportamento e observar como o organismo responde.
6. O rosto também pode denunciar uma perda muito acelerada
Enquanto a balança comemora os quilos eliminados, o espelho pode revelar outra mudança. Bochechas mais fundas, sulcos mais evidentes e flacidez podem aparecer depois de perdas importantes de gordura corporal.
O cirurgião plástico facial Dr. Yuri Moresco (CRM 33797 | RQE 28162) explica que não existe a possibilidade de escolher exatamente de onde o corpo retirará gordura durante o emagrecimento.
“Quando ocorre uma perda significativa de gordura, o rosto também pode perder volume. Dependendo da idade, da qualidade da pele, da anatomia e da velocidade e magnitude dessa mudança, estruturas que antes tinham sustentação podem ficar mais evidentes e uma flacidez preexistente pode aparecer com maior intensidade. Isso não significa que emagrecer faça mal ao rosto, mas mostra que uma transformação corporal importante também repercute na face”, explica Yuri.
O especialista alerta ainda para outro comportamento impulsivo: tentar corrigir imediatamente cada mudança facial com preenchimentos.
“Nem todo rosto que parece mais envelhecido depois de emagrecer precisa simplesmente receber volume. Precisamos diferenciar perda de gordura, flacidez e deslocamento dos tecidos. Preencher indiscriminadamente pode deixar a face pesada e modificar características naturais. Quando o peso ainda está mudando, muitas vezes é melhor observar a evolução antes de decidir quais alterações realmente permaneceram”, acrescenta.
7. A meta deveria ser saúde, não uma data no calendário
Os especialistas concordam em um ponto: medicamentos modernos ampliaram as possibilidades de tratamento e não devem ser demonizados. Da mesma maneira, desejar emagrecer não é o problema. O alerta está em transformar o processo em uma corrida na qual qualquer método parece justificável desde que produza rapidamente um número menor na balança.
“Durante muito tempo tivemos poucas ferramentas farmacológicas realmente eficazes contra a obesidade. Agora estamos vivendo uma nova fase da endocrinologia, e isso é extremamente positivo. Mas justamente porque os medicamentos são mais eficazes, precisamos utilizá-los com ainda mais responsabilidade. O futuro do tratamento não é emagrecer o paciente o máximo possível no menor tempo. É conseguir tratar uma doença crônica, melhorar a saúde cardiometabólica, preservar massa magra e construir resultados sustentáveis”, conclui Dr. Bruno Cardoso.
A chegada do verão pode ser o estímulo que faltava para começar a cuidar do peso. O que não deveria ser é o prazo final para colocar a saúde em risco. Na nova era do emagrecimento, talvez a pergunta mais importante tenha deixado de ser “quantos quilos você perdeu?” e passado a ser “como o seu corpo chegou até lá?”.
foto: divulgação


