Por Eduardo Trevizoli Justo, médico de Família e Comunidade
No consultório, é comum encontrar mulheres que chegam com queixas de cansaço constante, dores de cabeça frequentes, insônia, ansiedade ou irritabilidade. Muitas vezes, elas acreditam que esses sintomas fazem parte da rotina e que precisam apenas “aguentar mais um pouco”. Mas, na prática, o que vejo é que, em muitos casos, esses sinais são alertas de um organismo que está tentando dizer que algo não vai bem.
A mulher brasileira acumula múltiplos papéis. Além da atuação profissional, frequentemente é ela quem assume a maior parte das tarefas domésticas, dos cuidados com os filhos, da atenção aos pais idosos e da organização da vida familiar. Essa jornada dupla ou até tripla exige uma energia enorme e, quando se prolonga sem períodos adequados de descanso e autocuidado, pode trazer consequências importantes para a saúde física e mental.
Os números ajudam a mostrar a dimensão desse problema. Em 2025, as mulheres concentraram 63,46% dos benefícios por incapacidade temporária relacionados a transtornos mentais e comportamentais no Brasil. O dado chama atenção porque evidencia uma realidade que observo diariamente: muitas mulheres estão chegando ao limite.
O mais preocupante é que o adoecimento nem sempre acontece de forma repentina. Na maioria das vezes, ele se instala gradualmente. Primeiro surge o cansaço. Depois, a dificuldade para dormir. Em seguida, aparecem a irritabilidade, a falta de concentração, a sensação constante de preocupação e até sintomas físicos, como dores musculares e alterações gastrointestinais. Como esses sinais surgem em meio à rotina corrida, acabam sendo normalizados.
Mas não deveriam.
Sentir-se exausta o tempo todo não é normal. Viver sem conseguir descansar adequadamente não é normal. Conviver diariamente com ansiedade, irritabilidade ou sensação de culpa por não dar conta de tudo também não deveria ser encarado como algo inevitável.
Como médico de Família e Comunidade, acredito que uma das maiores contribuições da especialidade é justamente olhar para além dos sintomas. Quando uma paciente relata dores frequentes, insônia ou fadiga, meu papel não é apenas investigar possíveis causas físicas. Também é importante compreender como ela vive, quais responsabilidades carrega, qual rede de apoio possui e quais fatores do seu contexto podem estar influenciando sua saúde.
Afinal, muitas vezes o problema não está apenas no sintoma, mas nas condições que levaram ao seu aparecimento.
Outro aspecto importante é entender que o cuidado não deve ser fragmentado. A saúde mental, a saúde cardiovascular, os exames preventivos e os hábitos de vida estão profundamente conectados. Quando conseguimos integrar essas diferentes dimensões em um único acompanhamento, tornamos o cuidado mais eficiente e adequado à realidade de quem já dispõe de pouco tempo para cuidar de si.
Também procuro reforçar que ninguém precisa enfrentar essa sobrecarga sozinho. A construção de redes de apoio, a divisão de responsabilidades dentro da família, a participação em grupos comunitários e a busca por atividades que promovam bem-estar podem fazer uma diferença significativa na prevenção do adoecimento.
É importante lembrar ainda que a sobrecarga se manifesta de formas diferentes ao longo da vida. Mulheres jovens enfrentam desafios relacionados aos estudos, ao mercado de trabalho e à construção da independência financeira. Mães de crianças pequenas convivem com demandas intensas de cuidado. Já no climatério e na menopausa, as mudanças hormonais podem potencializar sintomas como fadiga, alterações de humor e dificuldades para dormir.
Por isso, não existem soluções universais. Cada mulher tem sua própria história, seus desafios e suas necessidades. O cuidado precisa ser individualizado e respeitar essa realidade.
Vivemos em uma sociedade que costuma valorizar a capacidade feminina de dar conta de tudo. No entanto, talvez seja o momento de valorizar também a capacidade de reconhecer limites, pedir ajuda e reservar espaço para o autocuidado. Porque cuidar da própria saúde não é um ato de egoísmo. É uma condição essencial para continuar cuidando daquilo e daqueles que realmente importam.
Quando uma mulher adoece, muitas vezes toda a sua rede de relações é impactada. Por isso, promover o bem-estar feminino é uma responsabilidade coletiva. E o primeiro passo para isso é reconhecer que ninguém deveria precisar escolher entre cuidar dos outros e cuidar de si mesma.
Eduardo Trevizoli Justo é médico de Família e Comunidade.
CRM/SC 35069 RQE 28990
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