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Desmonte forçado de fundos alavancados derruba ações do setor tecnológico, mas expõe abismo financeiro entre fornecedores de infraestrutura e operadoras endividadas

O desmonte forçado de posições de fundos de investimento alavancados deflagrou uma correção de preços nas bolsas globais e abriu uma janela de oportunidade bilionária de compra de companhias que fornecem a infraestrutura física para a inteligência artificial — energia, redes elétricas, refrigeração e data centers. Dados da carta de gestão da Hike Capital referentes a julho de 2026 indicam que a liquidação compulsória por falta de garantias gerou descolamento entre a cotação dos ativos e a demanda real por capacidade computacional, evidenciando assimetria de risco entre empresas da cadeia física e operadoras altamente endividadas.

Em julho, o índice de semicondutores da Filadélfia recuou 24% ante o pico de junho, e o Nasdaq caiu mais de 10%. No mesmo período, as quatro maiores empresas de nuvem (Alphabet, Amazon, Meta e Microsoft) elevaram as projeções de investimentos para 2026 em 77%, somando US$ 725 bilhões.

A análise de crédito aponta que operadoras tomadoras, que usam dívida curta para construir data centers, enfrentam custos crescentes de captação. O spread dos títulos corporativos do setor avançou de 50 para 78 pontos-base ante os papéis do Tesouro americano. O contrato de proteção contra calote de cinco anos da Nvidia atingiu a marca recorde de 82 pontos-base em 27 de julho, contra 42 no fim de junho.

Na outra ponta, fornecedoras de infraestrutura física (sistemas elétricos, rede, refrigeração e terrenos) operam com receitas contratadas em carteiras de longo prazo. A carteira de pedidos da Vertiv atingiu US$ 15 bilhões, a Comfort Systems reportou US$ 14,06 bilhões (alta de 73,2%) e a Arista Networks elevou a meta de receita para equipamentos de IA a US$ 3,5 bilhões em 2026.

“A queda de preços foi provocada pela venda forçada de fundos alavancados para depósito de garantias nos bancos, e não por piora operacional. Esse movimento criou uma divergência entre a cotação das ações e a demanda real por infraestrutura”, declara Angelo Belitardo Neto, gestor da Hike Capital.

A gestora cita que os investimentos em infraestrutura de IA até 2030 somarão US$ 5,5 trilhões (JP Morgan) e os aportes em data centers atingirão US$ 1,7 trilhão ao ano (Dell’Oro). A McKinsey estima US$ 7 trilhões em dispêndios no setor até 2030, sendo US$ 1,3 trilhão destinados à energia e refrigeração.

“A estratégia aloca em fornecedoras que recebem por contrato e financiam o capital de giro com o próprio cliente, evitando tomadores dependentes de dívida curta em cenário de juros altos”, afirma Belitardo. A Hike Capital compra gradualmente papéis de fornecedores físicos, prevendo que o ajuste alavancado ainda trará volatilidade nos próximos meses.

Seletividade

No cenário doméstico, o mês de agosto desenha-se como um divisor de águas e exigirá disciplina redobrada na escolha dos ativos. A recuperação parcial de julho — quando o Ibovespa subiu 2,98% aos 177.158,86 pontos impulsionado por R$ 4,71 bilhões em capital estrangeiro e pela trégua do IPCA-15 a 0,06% — deve ser vista apenas como uma recomposição pontual após meses de perdas, e não como uma tendência de alta consistente. Para os próximos meses, o ambiente local permanece delimitado por sérios riscos fiscais. O déficit primário do governo central atingiu R$ 48,18 bilhões em junho, elevando a dívida pública a R$ 9,268 trilhões. O endividamento em ano eleitoral mantém elevados os prêmios na curva longa de juros, limitando o impacto prático de eventuais cortes na Selic sobre o custo de capital das empresas.

Três fatores centrais devem orientar o mercado em agosto. O primeiro é a comunicação do Copom, que sinalizará a trajetória futura dos juros longos — o verdadeiro balizador do valuation das ações. O segundo é a temporada de balanços do segundo trimestre, em que o mercado passará a punir companhias que entregam lucro, mas queimam caixa ou investem sem retorno claro, priorizando negócios com previsibilidade de geração de caixa. O terceiro é o cenário internacional, onde a perspectiva de juros altos nos Estados Unidos e as tarifas americanas sobre produtos brasileiros pressionam a moeda. A projeção é que o dólar orbite entre R$ 5,05 e R$ 5,15 em agosto, caminhando rumo a R$ 5,20 no fim do ano.

Diante do aumento da dispersão entre empresas vencedoras e perdedoras, a Hike Capital reforça a seletividade. O fundo evita setores altamente alavancados e sensíveis ao consumo, como commodities, varejo dentre outros de maior grau cíclico ou de margens comprimidas. Na renda fixa, rejeita títulos públicos indexados à inflação (NTN-B/IPCA+) e debêntures incentivadas com prêmios comprimidos, focando em FIC FIDCs com estrutura de risco mais conservadores, com garantias reais e ativos de infraestrutura mais ilíquidos.

Na renda variável, a carteira comprada foca em companhias desalavancadas, ou em ciclos claros de desalavancagem, geradoras de caixa e cronograma de capex futuro em ciclo de diluição, o que elevam as perspectivas de crescimento na geração de fluxo de caixa livre. Nesse sentido, destacamos a Smart Fit, Cury, Tenda, Bemobi, JSL, Pague Menos, RD Saúde, MBRF, Banco Pine, Movida, EcoRodovias, Motiva, Equatorial, Sabesp e Embraer, mantendo também posição comprada em dólar como proteção. “O mercado passou a valorizar quem entrega qualidade, disciplina e caixa recorrente. Em agosto, separar o ruído do fundamento será o diferencial”, conclui Belitardo.

Foto de Steve A Johnson na Unsplash

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