Compartilhe:

Doenças que afetam o sangue, a medula óssea e o sistema linfático podem apresentar sintomas semelhantes aos de problemas comuns e, em alguns casos, permanecem silenciosas por longos períodos

Quando se fala em “doenças do sangue”, muitas dúvidas surgem entre os brasileiros. Leucemias, linfomas e mieloma múltiplo fazem parte dos chamados tumores hematológicos, enquanto as anemias hemolíticas estão entre as doenças que afetam as células sanguíneas e podem ter diferentes causas. Apesar de terem características distintas, esses problemas muitas vezes são associados a informações equivocadas, o que pode dificultar o reconhecimento dos sinais de alerta e a busca por avaliação médica.

De acordo com a estimativa mais recente do Instituto Nacional de Câncer (INCA), são esperados 12.220 novos casos de leucemia por ano no Brasil entre 2026 e 2028, considerando homens e mulheres. A doença ocupa a 13ª posição entre os tipos de câncer mais incidentes no país, desconsiderando os tumores de pele não melanoma.

Para esclarecer algumas das principais dúvidas sobre essas doenças, o Dr. Breno Gusmão, oncologista da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo, explica o que é verdadeiro e o que é mito quando o assunto são os tumores hematológicos e as anemias hemolíticas.

“Uma das dificuldades é que alguns sintomas podem ser inespecíficos e aparecer em diversas condições. Cansaço, fraqueza, palidez, febre, infecções recorrentes ou perda de peso, por exemplo, não significam necessariamente uma doença hematológica, mas, quando persistentes ou associados a outros sinais, merecem investigação médica”, explica o especialista.

Leucemia: nem toda leucemia é igual

A leucemia é um câncer que se origina nas células da medula óssea e apresenta diferentes subtipos. O INCA destaca quatro principais: leucemia linfoide aguda, leucemia linfoide crônica, leucemia mieloide aguda e leucemia mieloide crônica. Cada uma possui características, evolução e estratégias de tratamento diferentes.

Verdade: existem diferentes tipos de leucemia e o tratamento é definido de acordo com o subtipo e as características de cada paciente.

Verdade: a leucemia pode ocorrer em diferentes faixas etárias. Alguns tipos são mais frequentes em crianças, enquanto outros predominam entre adultos.

Mito: leucemia é uma única doença e todos os pacientes recebem o mesmo tratamento.

Mito: receber o diagnóstico de leucemia significa necessariamente não ter perspectiva de controle ou de qualidade de vida. Os avanços terapêuticos ampliaram as possibilidades de tratamento para diferentes subtipos da doença. Em 2026, por exemplo, o SUS incorporou uma nova opção terapêutica para adultos com leucemia mieloide aguda que não apresentam condições clínicas para receber quimioterapia intensiva tradicional.

Linfomas: nem todo aumento de gânglio significa câncer

Os linfomas são tumores que se originam no sistema linfático e compreendem diferentes doenças, entre elas o linfoma de Hodgkin e os linfomas não Hodgkin. No caso dos linfomas não Hodgkin, o INCA estima 12.560 novos casos por ano no Brasil no período de 2026 a 2028.

Um dos sinais que pode chamar atenção é o aumento persistente de linfonodos, popularmente conhecidos como “ínguas”. Entretanto, infecções e outras condições também podem provocar esse aumento, tornando a avaliação médica fundamental.

Verdade: existem diferentes tipos de linfoma, com comportamentos e tratamentos distintos.

Verdade: pessoas com o sistema imunológico comprometido apresentam maior risco para alguns tipos de linfoma. Entre os fatores relacionados estão determinadas doenças, infecções e o uso de medicamentos imunossupressores.

Mito: todo aumento de gânglio significa linfoma.

Mito: linfoma é uma doença exclusivamente de idosos. Alguns tipos podem ocorrer em pessoas jovens, enquanto outros são mais frequentes em faixas etárias mais avançadas.

Mieloma múltiplo: doença pode atingir mais do que os ossos

O mieloma múltiplo é um câncer que afeta as células plasmáticas, um tipo de célula do sistema imunológico produzido na medula óssea. A doença pode comprometer diferentes órgãos e sistemas, e seus sinais podem ser confundidos com problemas mais comuns, principalmente em pessoas mais velhas.

Verdade: dor óssea, principalmente persistente, fraturas, anemia, infecções recorrentes e alterações da função dos rins podem estar entre as manifestações da doença.

Verdade: o mieloma múltiplo é mais frequente em pessoas mais velhas.

Mito: o mieloma múltiplo afeta exclusivamente os ossos. A doença também pode comprometer a produção das células sanguíneas, os rins e o sistema imunológico.

Mito: todos os pacientes apresentam sintomas logo no início. Algumas alterações podem ser identificadas em exames antes do aparecimento de manifestações mais evidentes.

“É importante não atribuir automaticamente uma dor óssea ou um quadro de anemia ao envelhecimento. Dependendo do contexto clínico, uma investigação mais ampla pode ser necessária para identificar a causa”, afirma o Dr. Breno.

Anemia hemolítica não é sinônimo de falta de ferro

Outro equívoco frequente está relacionado às anemias. Nem toda anemia é causada pela deficiência de ferro. A anemia pode ocorrer por perda de sangue, produção insuficiente de glóbulos vermelhos ou destruição excessiva dessas células.

Nas anemias hemolíticas, o organismo destrói os glóbulos vermelhos antes do tempo normal. Em condições habituais, essas células permanecem na circulação por aproximadamente 120 dias; quando são destruídas precocemente e a medula óssea não consegue compensar essa perda, ocorre a anemia hemolítica.

Verdade: anemia hemolítica está relacionada à destruição precoce das hemácias e não simplesmente à falta de ferro.

Verdade: cansaço, fraqueza, palidez e falta de ar podem ocorrer. Em quadros de hemólise mais intensa, também podem aparecer icterícia, aumento do baço, dor no peito, desmaio e manifestações cardiovasculares.

Verdade: existem causas hereditárias e adquiridas. Entre elas estão alterações próprias das hemácias, doenças autoimunes, algumas infecções, determinados medicamentos e outras condições clínicas.

Mito: toda anemia deve ser tratada com reposição de ferro.

Mito: somente pessoas com histórico familiar desenvolvem anemia hemolítica. Algumas formas são adquiridas ao longo da vida e podem estar relacionadas a outras doenças ou ao uso de determinados medicamentos.

“É importante entender que a anemia é um sinal, e não necessariamente um diagnóstico final. Antes de iniciar qualquer suplementação, é fundamental identificar sua causa. No caso das anemias hemolíticas, por exemplo, a investigação pode envolver diferentes exames laboratoriais para confirmar a destruição das hemácias e entender o motivo pelo qual ela está acontecendo”, explica o oncologista.

Atenção aos sinais persistentes

Embora muitas doenças hematológicas possam apresentar poucos sintomas no início, alterações persistentes devem ser avaliadas por um profissional de saúde. Cansaço sem explicação, palidez, febre recorrente, infecções frequentes, sangramentos ou hematomas sem causa aparente, perda de peso não intencional, aumento persistente de linfonodos, dores ósseas e alterações identificadas em exames de sangue são alguns dos sinais que podem justificar uma investigação.

“Não existe um único sintoma capaz de confirmar uma doença hematológica. O diagnóstico depende da avaliação clínica e, quando necessário, de exames laboratoriais, de imagem e outros procedimentos específicos. O mais importante é não normalizar sintomas persistentes e evitar a automedicação”, finaliza Dr. Breno Gusmão.

Foto de Nguyễn Hiệp na Unsplash

Somos um veiculo de comunicação. As informações aqui postadas são de responsabilidade total de quem nos enviou.