Bufê Abrigo, de Maria Fernanda Paes de Barros, reúne saber ancestral a uma leitura contemporânea

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O olhar para dentro, de Maria Fernanda Paes de Barros, tem um significado profundo dentro da sua trajetória artística

Além de encontrar inspiração em introspecções pessoais, a artista e idealizadora da Yankatu mergulha para dentro da história e ancestralidade dos múltiplos povos originários do Brasil. Após o lançamento da Coleção Xingu, em 2020, Maria Fernanda traz o Bufê Abrigo, uma nova peça para completar a sua narrativa após intensa imersão com a comunidade da aldeia Kaupüna, da etnia Mehinaku, em dezembro de 2019.

Inspirado na arquitetura das ocas e nas esteiras feitas pelas das mulheres com talos de buriti e fios de algodão, o Bufê Abrigo apresenta a tradição sob uma nova perspectiva. “A oca é lugar de abrigo e proteção. É nela que famílias inteiras vivem, protegidas do sol intenso e dos animais do bioma onde estão inseridas. Suas formas arredondadas são conseguidas utilizando-se troncos de pindaíba, finos, compridos e flexíveis, amarrados com casca de embira”, explica Maria Fernanda. É daí que vem o nome do móvel, cujas portas abrem e fecham como abraços que acolhem e protegem.

Assim como a coleção Xingu, o Bufê Abrigo foi produzido remotamente, por conta do isolamento social imposto pela pandemia. “A ideia inicial era levar para a aldeia cilindros de madeira para propor às mulheres substituirmos os talos de buriti e, juntas, tecermos uma nova esteira. Mas a pandemia chegou e foi impossível retornar. Resolvi, então, propor uma nova abordagem com o auxílio do meu amigo Kulikyrda “Stive” Mehinaku. Ele conversou com as mulheres que concordaram em me ensinar a tecer uma esteira por meio de aulas em vídeo”, conta a artista. Na época, a aldeia ainda não tinha sinal de internet, o que fez com que Stive precisasse ir próxima à área de uma fazenda, na divisa com o Território Indígena do Xingu onde, gentilmente, o fazendeiro cedia o sinal aos indígenas. Dessa forma, Stive enviava mensagens, vídeos e áudios, materiais que ajudaram Maria Fernanda a desenvolver, aos poucos, uma coleção que contava as distintas histórias, mas que, em algum momento, começaram a formar uma nova narrativa.

“Eu admiro muito a arte das mulheres com o buriti e queria sentir na pele como é trabalhar sentada no chão como elas, fazendo movimentos de ir e vir que aos poucos dão vida a desenhos tão lindos. Procuro sempre me colocar no lugar do outro para tentar entender o mundo pelos seus olhos, suas dores e alegrias”, conta Maria Fernanda. Por meio dos desenhos das portas, a artista procurou passar tudo que sentiu e aprendeu: por isso, optou por tecer um jacaré tradicionalmente trançado nas esteiras de buriti; já na outra face, teceu linhas orgânicas, como se delas a mensagem de união e respeito à vida ganhasse o mundo.

Outro processo que Maria Fernanda precisou acompanhar de longe foi a coleta de matéria-prima para tingimento dos fios de algodão usados na esteira. Para isso, ela contou novamente com a ajuda de Stive Mehinaku para colher um material abundante e que normalmente não é visto para esse fim: cascas e folhas das plantas e árvores utilizadas para construção das ocas e do artesanato. Stive enviou o material para Maibe Maroccolo, da Matriccaria, em Brasília, que extraiu os pigmentos tintórios para juntos criarem o que Maria Fernanda demominou como cartela de cores do Xingu. “As mulheres adoraram as novas cores e me pediram mais, então assim que a pandemia estiver controlada pretendo retornar à aldeia levando a Maibe comigo para que, junto com as mulheres, recuperemos a tradição do tingimento natural, que foi deixada de lado quando elas entraram em contato com o algodão industrial colorido”.

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