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Projeto transforma espécies da Mata Atlântica em eixo central da experiência sensorial, em diálogo com a curadoria artística 

A Casa Corcovado surge como uma interpretação contemporânea da chamada bossa carioca. Assinado pela arquiteta Paula Martins, representante do estado do Rio de Janeiro na primeira Bienal de Arquitetura Brasileira (BAB), o projeto foi um dos 27 selecionados em concurso nacional que reuniu residências de cerca de 100 m², cada uma representando um estado brasileiro no Pavilhão das Culturas Brasileiras (PACUBRA). Inserido no pavilhão dedicado ao bioma Mata Atlântica, o projeto parte dessa relação direta com o território para construir sua narrativa. “O projeto traduz uma ideia de leveza e fluidez muito associada ao morar carioca. A arquitetura se abre para a paisagem e permite que ela faça parte da experiência cotidiana”, explica Paula Martins.

Nesse contexto, o paisagismo — assinado por Albite Coutinho — assume papel estruturante, organizando a experiência sensorial do espaço e reforçando a presença do bioma como elemento central da proposta. “O paisagismo foi pensado como uma extensão natural da arquitetura, mas também como uma forma de trazer o bioma para dentro do espaço. Trabalhar com espécies da Mata Atlântica é uma maneira de valorizar a nossa paisagem e traduzir isso em experiência”, destaca Albite Coutinho.

A escolha por espécies nativas parte de uma curadoria botânica cuidadosa, que respeita as características do bioma e, ao mesmo tempo, dialoga com a linguagem contemporânea do projeto. Critérios como adaptação, volumetria e diversidade morfológica orientam a composição, criando um equilíbrio entre técnica e sensibilidade.

Dentro dessa construção, algumas espécies ganham protagonismo. A jabuticabeira (Plinia cauliflora) aparece como símbolo de memória afetiva, evocando o imaginário dos quintais brasileiros, enquanto o pacová (Philodendron martianum) introduz uma presença escultural, com folhas densas e brilhantes que reforçam a materialidade do espaço. São elementos que ajudam a construir uma narrativa que vai além da estética.

A integração entre paisagismo e arte é aprofundada pela curadoria artística de Belchior Almeida, que propõe uma leitura onde natureza e expressão artística coexistem de forma indissociável. “A proposta curatorial entende o paisagismo como parte da linguagem expositiva. As plantas são tratadas como obras vivas, que dialogam diretamente com o espaço e com os demais elementos”, afirma Belchior Almeida.

Mais do que uma composição visual, o paisagismo foi concebido para provocar sensações. A presença das espécies, aliada ao jogo de luz e sombra, constrói uma atmosfera de calma, frescor e introspecção, transformando o ambiente em uma experiência imersiva.

A escolha por espécies nativas também reforça um compromisso ambiental. Adaptadas às condições locais, essas plantas demandam menos intervenção, favorecem a biodiversidade e contribuem para o equilíbrio ecológico, consolidando o paisagismo como agente ativo dentro de uma lógica sustentável.

Dentro do contexto da Bienal, a Casa Corcovado amplia o debate sobre a relação entre arquitetura, natureza e identidade brasileira. Ao trazer a Mata Atlântica como eixo condutor, o projeto evidencia como os biomas podem ser incorporados à arquitetura não apenas como referência estética, mas como estrutura narrativa.

O processo, no entanto, revela desafios importantes. A disponibilidade ainda limitada de espécies nativas no mercado exige uma curadoria estratégica, enquanto as condições do ambiente expositivo — como iluminação, ventilação e irrigação — demandam soluções específicas para garantir a vitalidade das espécies.

Ao final, o projeto propõe uma nova forma de pensar o morar contemporâneo. A natureza ocupa um lugar essencial — não apenas como estética, mas como parte de um sistema que promove bem-estar, equilíbrio e pertencimento.

Mais do que uma escolha botânica, o uso de espécies brasileiras afirma uma identidade e aponta para um futuro em que arquitetura e natureza coexistem de forma integrada, consciente e indispensável.

Fotos: Rafael Renzo

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