Levantamento mostra que ataques a prestadores de serviços para hospitais cresceram 110% em um ano; estratégia permite comprometer diversas instituições de uma só vez e amplia riscos para pacientes e sistemas de saúde
Os hospitais continuam entre os principais alvos dos cibercriminosos, mas uma mudança na estratégia dos ataques começa a chamar a atenção de especialistas em segurança digital. Além de invadir diretamente hospitais e clínicas, os criminosos passaram a intensificar ataques contra empresas que compõem a cadeia da saúde, como fornecedores de softwares médicos, processamento de dados, faturamento, infraestrutura de TI e outras empresas que prestam serviços para hospitais e clínicas.
O movimento é evidenciado por um levantamento da Comparitech, que aponta crescimento de 14% nos ataques ao setor de saúde no primeiro semestre de 2026, acima da média de 11% registrada entre todos os segmentos econômicos. O dado mais expressivo, porém, está entre as empresas que atendem hospitais e clínicas: os ataques aumentaram 35% em relação ao segundo semestre de 2025 e 110% na comparação com o mesmo período do ano anterior.
Segundo especialistas, a lógica é simples. Ao comprometer um único fornecedor, os criminosos conseguem potencialmente atingir dezenas ou até centenas de hospitais simultaneamente, aumentando o impacto operacional do ataque e elevando a pressão pelo pagamento de resgates.
“A cadeia de fornecedores se tornou um dos pontos mais sensíveis da segurança digital na saúde. Um único parceiro pode concentrar dados de pacientes, integrações, serviços críticos ou acessos de vários clientes. Quando esse elo é comprometido, o impacto pode atingir diversas instituições, mesmo sem uma invasão direta a cada hospital. Para grupos de extorsão, atacar um ponto central pode oferecer mais escala e pressão do que agir instituição por instituição”, analisa Rodolfo Almeida, COO da ViperX, empresa de cibersegurança do Grupo Dfense Security.
Casos recentes ilustram essa mudança de estratégia. Nos Estados Unidos, um ataque de ransomware ao University of Mississippi Medical Center interrompeu operações por cerca de duas semanas em 35 unidades de saúde. Na Alemanha, um ataque à empresa Unimed, responsável por atender aproximadamente 95% dos hospitais universitários do país, expôs dados de saúde de dezenas de milhares de pacientes. Outro caso envolveu a TriZetto Provider Solutions, cuja invasão comprometeu informações de aproximadamente 3,4 milhões de pacientes.
O padrão também já é observado no Brasil. Em 2025, a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) instaurou processo sancionador contra o Instituto Saúde e Cidadania (ISAC) após um ataque de ransomware expor dados de cerca de 500 mil pacientes. No mesmo ano, o grupo KillSec atacou a MedicSolution, fornecedora de software para clínicas, e divulgou aproximadamente 94 mil arquivos contendo informações sensíveis, incluindo prontuários médicos.
De acordo com o Cost of a Data Breach Report 2025, da IBM, organizações de saúde brasileiras registraram, em média, 3.167 ataques cibernéticos por semana em 2025, cerca de 37% acima da média global do setor. O segmento também permanece como o mais caro em custo de violação de dados pelo 14º ano consecutivo, com prejuízo médio de US$7,42 milhões por incidente.
Além dos prejuízos financeiros, os ataques podem afetar diretamente a assistência aos pacientes. Um estudo da Microsoft Research, publicado na revista científica Nature associou ataques de ransomware em hospitais ao aumento de 15% no volume de pacientes, quase 50% mais tempo de espera e crescimento de 113% nos casos confirmados de AVC e de 81% nas paradas cardíacas durante os períodos de indisponibilidade dos sistemas.
Para Rodolfo Almeida, a tendência exige que os hospitais ampliem sua visão sobre segurança cibernética e passem a avaliar também o nível de proteção de toda a cadeia de parceiros tecnológicos. “A segurança não termina nos limites da rede do hospital. As instituições precisam saber quais fornecedores armazenam dados, operam serviços críticos ou mantêm acesso remoto aos seus ambientes. A partir desse mapeamento, devem exigir autenticação multifator, acessos limitados e temporários, monitoramento, comunicação rápida de incidentes e planos de continuidade testados em conjunto. Sem esses controles, a falha de um parceiro pode se transformar rapidamente em uma crise operacional e, nos casos mais graves, afetar a assistência aos pacientes”, conclui.
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