Compartilhe:

Médico explica que medicamentos para emagrecer funcionam no tratamento da artrose; já há pelo menos três estudos que analisam essa relação.

Já se sabe há muito tempo que a perda de peso traz inúmeros benefícios para as articulações do joelho e do quadril. Isso ocorre devido à sobrecarga mecânica e a inflamação sistêmica. No entanto, a perda de peso pode levar a uma redução de 40% na necessidade de realizar uma prótese de quadril e diminuição de 20% da prótese de joelho, em pacientes que perderam peso.

Estes dados integram estudos recentes – realizados em pacientes por um período de 18 meses – com medicamentos criados inicialmente para o tratamento do diabetes e que ganharam fama pelo efeito no emagrecimento: a tizerpatida e a semaglutida. Agora, seus efeitos estão indo além da balança e beneficiando pacientes com necessidade de prótese.

“O excesso de peso sobrecarrega as articulações dos joelhos e quadris, o que acelera o desgaste da cartilagem. Além disso, a obesidade está associada a um estado de inflamação crônica no corpo e o tecido adiposo (gordura) libera substâncias inflamatórias, que podem danificar a cartilagem e agravar a artrose”, explica o ortopedista e especialista em cirurgia do joelho e do quadril, Thiago Fuchs.

O principal trabalho que colocou o tema em evidência foi o SURMOUNT-5, publicado no New England Journal of Medicine. O estudo comparou duas medicações amplamente conhecidas, a tirzepatida (Mounjaro), e a semaglutida (Ozempic e Wegovy). O objetivo principal era avaliar a perda de peso, mas os pesquisadores observaram também desfechos secundários relevantes para a ortopedia.

Já outro estudo, publicado no final de 2025, realizado por pesquisadores do Centro de Ortopedia e Artrite para Pesquisa de Resultados do Brigham and Women’s Hospital, ambos em Boston, Massachusetts, nos Estados Unidos avaliou o custo-efetividade de agonistas do receptor de GLP-1 (GLP1RAs) e outras intervenções para perda de peso em pacientes com osteoartrite de joelho e obesidade.

Eles examinaram seis estratégias clínicas: tratamento usual mais dieta e exercícios, tratamento usual com semaglutida, tratamento usual com tirzepatida, tratamento usual com cirurgia bariátrica. Todos os participantes tiveram um nível de redução da dor em pessoas com IMC > 30 kg/m² e osteoartrite de joelho sintomática.

“Esses dados não significam que o medicamento evite a prótese para sempre, mas mostram que muitos pacientes conseguiram sair da fila ou adiar a cirurgia no curto e médio prazo”, explica o médico ortopedista Thiago Fuchs, cirurgião de joelho e quadril, especialista no tratamento da artrose.

Obesidade x articulações

Uma das explicações é biomecânica. Durante a caminhada, o joelho suporta de 3 a 5 vezes o peso corporal, e o quadril, de 2 a 3 vezes. “Cada quilo perdido representa dezenas de quilos a menos de carga dentro da articulação a cada passo. Ao longo do dia, isso se transforma em toneladas de impacto poupadas”, explica Fuchs.

Essa redução de carga pode resultar em menos dor, mais mobilidade, melhor resposta aos exercícios e maior tolerância ao tratamento conservador.

Ainda assim precisa operar?

Mesmo entre pacientes que acabaram passando pela cirurgia de prótese, dados observacionais mostraram benefícios relevantes do uso prévio de agonistas de GLP-1, como tirzepatida e semaglutida. Nesses pacientes, observou-se a redução de infecção periprotética (de 1% vs. 1,8%), uma menor taxa de reinternação em 90 dias (5,3% de quem não usou medicação vs. 8,9% de quem usou) e a redução de complicações médicas totais (10,6% vs. 12,7%).

“Esses números são muito importantes do ponto de vista cirúrgico, porque obesidade aumenta o risco de complicações. Melhorar o perfil metabólico antes da cirurgia pode tornar o procedimento mais seguro. Mas é imprescindível que o paciente informe ao cirurgião que está usando esses medicamentos. O uso precisa ser suspenso algumas semanas antes da cirurgia, para não haver riscos na cirurgia”, alerta o especialista.

“O excesso de peso sobrecarrega as articulações dos joelhos e quadris, o que acelera o desgaste da cartilagem.” Thiago Fuchs, médico ortopedista, cirurgião de joelho e quadril

Resultado do Mounjaro é duradouro?

Apesar dos resultados animadores, há limites claros nos dados atuais. O que a ciência ainda não sabe é se esse efeito dos medicamentos vai se manter por vários anos. Os estudos mostram adiamento e redução da necessidade de prótese no curto e médio prazo, não uma prevenção definitiva. E para responder essa dúvida, um novo estudo está em andamento. É o STOP Knee OA.

Trata-se de um estudo clínico em andamento – e que portanto ainda não teve resultados publicados – que avalia o impacto da tirzepatida em pacientes com artrose moderada a grave de joelho, muitos deles já aguardando cirurgia de prótese. O objetivo do estudo é responder se os medicamentos reduzem dor e limitação funcional, diminuem ou adiam a necessidade da artroplastia, e se melhoram a qualidade de vida desses pacientes.

Mas o Dr. Thiago Fuchs reforça que esse tipo de medicação não é um tratamento isolado para artrose e não deve ser usada sem indicação médica. “O maior risco do ponto de vista ortopédico é a perda muscular junto com a perda de peso, o que pode piorar os sintomas da artrose”, alerta. Portanto, não é indicado a todos os pacientes.

Por isso, a abordagem correta no tratamento da obesidade e artrose envolve exercícios de força e fisioterapia; alimentação adequada, controle metabólico e a avaliação individual com endocrinologista, nutricionista e o ortopedista.

Para Fuchs, a promessa de ganhos no tratamento ortopédico com o uso de tirzepatida é real, mas com cautela. “Eles não substituem o tratamento ortopédico tradicional, mas podem ser aliados poderosos para reduzir dor, melhorar função, diminuir complicações e adiar a prótese em pacientes bem selecionados. A chave é usar com critério e numa estratégia multidisciplinar”, conclui.

foto:

Somos um veiculo de comunicação. As informações aqui postadas são de responsabilidade total de quem nos enviou.