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Projeto reúne 75 artistas e designers catarinenses no PACUBRA, no Parque Ibirapuera, com uma leitura da identidade do estado que vai além dos rótulos

O Pavilhão de Santa Catarina na BAB — Bienal de Arquitetura Brasileira é assinado pelo arquiteto e designer Jeferson Branco e resulta de um concurso nacional que reuniu mais de 1.300 projetos, avaliados por arquitetos vinculados ao CAU (Conselho de Arquitetura e Urbanismo) de cada estado. A chancela confere ao projeto, além da legitimidade técnica, o peso de ter sido escolhido pelos próprios pares como a melhor representação do estado dentro da primeira edição do evento, que ocupa o Pavilhão das Culturas Brasileiras (PACUBRA), projetado por Oscar Niemeyer, no Parque Ibirapuera, em São Paulo, de 25 de março a 30 de abril de 2026.

O ponto de partida conceitual é uma constatação: Santa Catarina vem sendo enquadrada, no imaginário nacional, dentro de uma visão redutora. O estado é frequentemente lido como território de herança exclusivamente europeia, de reprodução de modelos importados, desconectado de uma produção cultural própria. O pavilhão confronta essa percepção. Jeferson Branco propõe uma demonstração: reunir no mesmo espaço a evidência concreta de que o estado produz arte e design de excelência, com identidade autônoma, feitos por gente das mais diversas origens, formações e trajetórias.

A curadoria mapeou mais de 75 designers e artistas catarinenses. O resultado é um acervo que vai de nomes consolidados internacionalmente, como os artistas Juarez Machado e Walmor Corrêa, o designer Jader Almeida e a arquiteta Juliana Pippi, a criadores que despontam no cenário nacional, como o estúdio Hostin Borges, o Estúdio Prosa e a ceramista Mitushi. Essa convivência entre consagrados e emergentes é intencional: o pavilhão quer mostrar que a produção catarinense constitui um ecossistema vivo e em expansão.

O gesto arquitetônico traduz o discurso. O projeto preserva integralmente o piso de concreto original de Niemeyer, mantém os pilares aparentes e respeita os eixos visuais voltados para o entorno do Ibirapuera. Sobre essa base intocável, Branco insere um cubo central revestido com azulejos do artista Walmor Corrêa, uma instalação que retrata a fauna da Mata Atlântica catarinense, incluindo espécies de bromélias catalogadas pela primeira vez pelo Padre Raulino Reitz, biólogo radicado em Itajaí. A obra carrega, ao mesmo tempo, valor artístico e peso científico, e funciona como ponto central do percurso.

O cubo resolve também uma questão funcional. O edital da BAB exigia que cada pavilhão configurasse um apartamento completo, com banheiro, lavabo e lavanderia. Em vez de fragmentar o espaço em cômodos convencionais, Branco concentrou toda a infraestrutura rígida dentro desse volume, liberando o entorno para uma planta livre, orgânica, sem divisões físicas. O living, a cozinha, a suíte e o home office se organizam ao redor do cubo em quatro zonas fluidas, conectadas por um percurso de 360 graus que convida o visitante a descobrir, a cada passo, uma nova peça da curadoria.

No teto, um grid de madeira rigoroso se sobrepõe ao espaço como metáfora visual. A malha geométrica remete à tentativa de enquadrar o território e suas gentes em caixas e rótulos, uma pressão que vem de cima. No chão, por contraste, a vida acontece de forma livre: a arte e o design catarinense se distribuem organicamente pelo espaço, sem fronteiras rígidas. Essa tensão entre o grid e a planta livre é o coração semântico do projeto.

A materialidade reforça a narrativa. As paredes recebem acabamento em argila natural, sem componentes químicos. No teto e no fechamento da cozinha, painéis em tons amadeirados e avermelhados. Todos os metais são em inox e prata. O paisagismo, assinado por Laura Rotter, apresenta de forma inédita o projeto Jardim Bioma. A pesquisa investiga o apagamento da flora nativa no imaginário urbano ao resgatar espécies da Mata Atlântica catarinense que historicamente não encontram espaço no paisagismo comercial. No home office do pavilhão, o ambiente funciona como um centro de pesquisa vivo: vidros com sementes especiais e croquis botânicos da paisagista dialogam com a azulejaria de Walmor Corrêa e celebram o legado de Padre Raulino Reitz.

O mobiliário do pavilhão é parte da curadoria. Entre as peças de destaque, o louceiro da suíte é assinado por Jeferson Branco para a Vedac, marca amazônica que trabalha com o rejeito do manejo florestal sustentável. A peça nasce da coleção Igapó, uma reinterpretação da morada amazônica que troca a esbeltez das palafitas pela força do conhecimento ancestral que as sustenta. Feito em madeiras amazônicas raras com revestimento interno em couro de curvina amazônica, o louceiro traz encaixada em sua estrutura uma casinha em miniatura, tratada com precisão de joalheria. A peça é um primeiro vislumbre de uma coleção de 17 peças em desenvolvimento.

Todo o projeto foi concebido para execução off-site: o mobiliário, parte integrante da curadoria, foi produzido integralmente sob medida em chão de fábrica e trazido apenas para instalação. As paredes periféricas são em painéis de madeira autoportantes, sem qualquer fixação na estrutura original do edifício tombado. A intervenção respeita o limite de 3 metros de altura e preserva integralmente a fachada do PACUBRA.

O pavilhão não foi concebido para uma persona estática. Cada visitante é convidado a ocupar o lugar de descoberta: o catarinense que confronta a riqueza da própria identidade além dos mitos; o observador de fora, desafiado a rever o que pensava saber sobre o estado; e qualquer pessoa que, ao percorrer o espaço, perceba que a identidade cultural de um território é sempre mais complexa do que os rótulos que lhe impõem.

SOBRE JEFERSON BRANCO

Forbes Under 30 em 2024, Jeferson Branco é arquiteto, designer e palestrante. Graduado em Arquitetura e Urbanismo, cursou parte da formação na California Baptist University (EUA) e estagiou no estúdio D-Scheme Studio, em San Francisco. À frente do Jeferson Branco Arquitetura, com sede em Itajaí (SC), atua em todo o Brasil e tem presença internacional. O reconhecimento veio ainda na graduação, com o primeiro lugar geral no 22º Concurso Estudos Deca e a estreia na CASACOR SC 2018 com um projeto de banheiro sem gênero. Desde então, participou de diversas edições da mostra e, em 2025, integrou o elenco de 20 profissionais convidados para a Casa Dexco, no Conjunto Nacional, em São Paulo. Suas coleções de design, como as luminárias Kûara, os tapetes Protozoa e as mesas Irupe, foram apresentadas na Maison&Objet de Paris e na Semana de Design de Milão, e publicadas em veículos como Forbes Life Design, Casa Vogue, Casa e Jardim e Bazar. Atualmente cursa pós-graduação em Mercado e Comportamento no Século XXI na FAAP.

https://www.instagram.com/jefersonbranco/

SERVIÇO

BAB — Bienal de Arquitetura Brasileira

Período: 25 de março a 30 de abril de 2026

Horário: 12h às 21h

Local: Pavilhão das Culturas Brasileiras (PACUBRA), Parque Ibirapuera, São Paulo

Entrada: Portão 03 — Av. Pedro Álvares Cabral

Site: www.bienaldearquiteturabrasileira.com

FICHA TÉCNICA

Artistas e Designers: A. Terra Estúdio, Baruch, Beatriz Ricci, Bianca Barbieri, Bravio Studios, Edson Macalini, Elaya, Estúdio Prosa, Fabiano Simão, Gabriela Almeida, Giacomo Tomazzi, Gilberto Gomes, Guilherme Garcia, Hamilton Hadlich, Hostins Borges, IlustraBlack, Jader Almeida, Jean Tomedi, Jeferson Branco, Jesmynny Morais, Juarez Machado, Juliana Pippi, La Poltrona, Laura Rotter, Lilia Trizotto, Linda Martins, Luiz Rocha, Marina Otte, Mitushi, Móveis Cimo, Nestor Júnior, Pita Camargo, Regina Sorbello, Richard Gohr, T44, Tapeçaria Italiana, Vanessa Paz, Waldir Júnior, Walmor Corrêa

Paisagismo: Laura Rotter (projeto Jardim Bioma)

Pesquisa curatorial: com colaboração da jornalista Simone Bobsin

Projeto de iluminação: Waldir Júnior

Patrocinadores: Colinas de Camboriú, FHaus, Altenburg Haus, Duratex, Avell, Arte em Madeira, Granisul

fotos: Denilson Machado

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