Na reta final do ano, excesso de tarefas, reuniões e notificações pode consumir energia mental sem necessariamente gerar mais resultado, alerta José Felipe Carneiro
À medida que o ano avança e a pressão por metas, entregas e resultados aumenta, uma ideia ainda bastante presente no ambiente profissional volta a ganhar força: a de que, para produzir mais, é preciso trabalhar mais. Mais horas, mais reuniões, mais respostas, mais tarefas e disponibilidade constante. O problema é que esse excesso de atividade pode produzir justamente o efeito contrário ao esperado.
Para José Felipe Carneiro, empresário, cofundador da Wäls e autor de Performance Consciente, a associação entre produtividade e quantidade de trabalho precisa ser revista. Em muitos casos, o profissional que passa o dia ocupado pode estar apenas administrando um fluxo contínuo de demandas, sem dedicar tempo e energia ao que efetivamente gera resultado.
“Existe uma diferença importante entre estar ocupado e estar produzindo. A pessoa pode passar dez horas trabalhando, responder dezenas de mensagens e participar de várias reuniões e, ainda assim, não ter avançado naquilo que realmente era importante. O excesso de atividade pode dar uma sensação de produtividade sem necessariamente produzir performance”, afirma.
Quando tudo parece urgente
Um dos problemas está na dificuldade de estabelecer prioridades. Com notificações, mensagens, reuniões e solicitações chegando simultaneamente, o profissional pode passar a reagir ao que aparece na frente em vez de decidir conscientemente onde sua atenção deve estar.
É nesse ponto que a urgência pode começar a substituir a importância como critério de decisão. Uma mensagem que chegou há cinco minutos parece exigir mais atenção do que um projeto estratégico que terá impacto nos próximos meses simplesmente porque a primeira demanda é mais imediata.
“A urgência é muito sedutora porque ela nos dá a sensação de que estamos resolvendo alguma coisa. Mas nem tudo que é urgente é importante. Se passamos o dia inteiro reagindo às urgências dos outros, corremos o risco de não trabalhar naquilo que realmente move nossos resultados”, explica José Felipe.
O custo invisível do excesso de decisões
Outro fator pouco percebido é a chamada fadiga decisória. Ao longo de um dia, profissionais precisam tomar dezenas ou até centenas de pequenas decisões: responder ou não a uma mensagem, participar de uma reunião, mudar uma prioridade, resolver um problema, revisar um documento, escolher entre alternativas.
Isoladamente, nenhuma dessas decisões parece significativa. Somadas, porém, elas podem consumir uma parcela relevante da energia mental disponível para decisões mais complexas.
“A nossa energia não é infinita. Quando usamos boa parte dela para decisões pequenas, interrupções e problemas que poderiam ser evitados ou delegados, sobra menos capacidade para pensar estrategicamente. Performance também é saber quais decisões merecem a nossa atenção”, afirma.
Estar disponível não significa estar presente
A tecnologia ampliou a capacidade de comunicação, mas também tornou mais difícil estabelecer fronteiras. E-mails, aplicativos de mensagens e plataformas corporativas permitem que uma demanda chegue a qualquer momento, criando a impressão de que estar disponível é uma demonstração de comprometimento.
Na prática, a interrupção constante pode fragmentar a atenção. Em vez de dedicar um período contínuo a uma atividade que exige concentração, o profissional alterna entre tarefas, mensagens e reuniões, retomando diversas vezes o mesmo raciocínio.
Para José Felipe, essa lógica precisa ser questionada.
“Não é porque podemos responder imediatamente que precisamos responder imediatamente. A disponibilidade permanente tem um custo. Às vezes, proteger um período de concentração é muito mais produtivo do que passar o dia inteiro acessível para qualquer demanda”, diz.
Alta performance não é produtividade a qualquer custo
A proposta de Performance Consciente parte justamente da necessidade de separar performance de exaustão. O objetivo não é defender uma redução indiscriminada do trabalho, mas uma utilização mais estratégica do tempo, da atenção e da energia.
Isso envolve identificar prioridades, reduzir interrupções desnecessárias, distinguir urgência de importância, delegar quando possível e reconhecer que descanso e recuperação também fazem parte da capacidade de sustentar bons resultados.
“Alta performance não deveria ser uma corrida para fazer cada vez mais em menos tempo. Ela precisa estar relacionada à capacidade de gerar resultados relevantes de maneira sustentável. Se o modelo de produtividade exige que você esteja permanentemente exausto, talvez seja o próprio modelo que precise ser revisto”, afirma José Felipe.
Na reta final do ano, quando metas acumuladas e prazos apertados podem aumentar a pressão sobre profissionais e empresas, a provocação ganha ainda mais relevância: talvez a pergunta mais estratégica não seja “como trabalhar mais?”, mas “onde vale a pena colocar a minha melhor energia?”
foto: divulgação


