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Dispositivos prometem facilitar a escovação, mas especialistas alertam que tecnologia não substitui técnica adequada e orientação profissional

Escovas elétricas, irrigadores bucais, sensores de pressão, câmeras, inteligência artificial e aplicativos que monitoram a escovação estão cada vez mais presentes na rotina de higiene bucal. Com tantas opções disponíveis, surge uma dúvida para o consumidor: quais tecnologias realmente oferecem benefícios para a saúde da boca?

A presidente do Conselho Regional de Odontologia de São Paulo (CROSP), Dra. Karina Ferrão, explica que a tecnologia pode ser uma importante aliada quando ajuda o paciente a realizar melhor cuidados que já são reconhecidos como fundamentais para a prevenção.

Alguns equipamentos mais recentes, por exemplo, combinam escovação com câmera, inteligência artificial e jatos de água direcionados para os espaços entre os dentes. Apesar das inovações, o presidente do Grupo de Trabalho de Odontologia Digital do CROSP, Dr. Eric Murata, orienta que a escolha do dispositivo deve considerar as necessidades de cada paciente e contar com a orientação do cirurgião-dentista. Mesmo entre as escovas elétricas existem diferentes tecnologias, como sistemas vibratórios e rotatórios.

Jato de água

A limpeza dos espaços entre os dentes é uma etapa importante da higiene bucal, já que as cerdas da escova não alcançam completamente essas superfícies. Nesse contexto, os irrigadores podem atuar como recursos auxiliares.

“A limpeza entre os dentes é fundamental porque a escova comum não alcança completamente essas superfícies. A irrigação pode ajudar a remover resíduos e há evidências de que irrigadores contribuem para reduzir sangramento e inflamação gengival em alguns pacientes”, explica Dra. Karina.

Isso não significa, porém, que o jato de água possa substituir o fio dental ou a escova interdental em todas as situações. Como o biofilme adere à superfície dos dentes, a fricção direta continua sendo importante. O fio dental costuma ser indicado para contatos mais fechados, enquanto a escova interdental pode ser mais adequada para espaços maiores, ao redor de determinadas próteses e em alguns casos envolvendo doença periodontal ou implantes.

Nos equipamentos que incorporam câmeras, a imagem também deve ser entendida como um recurso auxiliar, e não como ferramenta de diagnóstico. Embora possa ajudar o usuário a visualizar determinadas regiões da boca, não substitui o exame clínico realizado pelo cirurgião-dentista nem permite identificar, isoladamente, cárie, doença gengival ou outros problemas.

Para pessoas que já realizam corretamente a escovação e a higiene entre os dentes, ainda não está demonstrado que recursos desse tipo proporcionem benefício clínico adicional relevante. Nesses casos, as principais vantagens podem estar relacionadas à conveniência e ao monitoramento da rotina. Já para quem apresenta dificuldade com a técnica ou em manter hábitos regulares de higiene, essas funcionalidades podem ser mais úteis.

“Na prática, não existe um único método ideal para toda a boca. Uma mesma pessoa pode precisar de fio em alguns pontos e escova interdental em outros. O irrigador pode ser uma alternativa útil para quem não consegue usar esses métodos ou não os incorpora à rotina, mas a escolha deve ser individualizada. Também faltam comparações clínicas diretas que mostrem se o jato específico dessa escova equivale ao fio, à escova interdental ou aos irrigadores já existentes”, afirma a presidente do CROSP.

Escovas elétricas

As escovas elétricas podem facilitar a higiene bucal e apresentam benefícios na redução de placa e gengivite. No entanto, uma frequência maior de movimentos não significa, necessariamente, que determinado modelo seja clinicamente superior. Essa vantagem precisa ser demonstrada por meio de comparações com outras escovas elétricas e em condições reais de uso.

Dra. Karina explica que a combinação de cerdas mais macias próximas à gengiva com outras um pouco mais firmes pode contribuir para a adaptação da cabeça da escova e para a remoção de manchas superficiais. Isso não significa que cerdas mais rígidas proporcionem, necessariamente, uma limpeza melhor.

Quando associadas ao excesso de força e a uma técnica inadequada, cerdas mais rígidas podem aumentar o risco de lesões na gengiva e de desgaste em regiões mais vulneráveis dos dentes. Por isso, características como velocidade, quantidade de movimentos ou rigidez das cerdas não devem ser avaliadas isoladamente na escolha do produto.

Tecnologia também pode favorecer a inclusão

Recursos como sensores de pressão, temporizadores, alertas e orientações sobre a cobertura da escovação podem ser especialmente úteis para pessoas com dificuldade de destreza ou coordenação motora, para quem não consegue utilizar adequadamente o fio dental ou para pacientes que se beneficiam de lembretes durante a higiene.

Pessoas que utilizam aparelhos ortodônticos também enfrentam maior retenção de placa e podem se beneficiar de recursos auxiliares. Já nos casos de implantes, próteses ou problemas gengivais, a higiene pode exigir instrumentos específicos, escolhidos de acordo com as características da boca de cada paciente.

A presença de diferentes funcionalidades, portanto, não significa que determinado equipamento seja a melhor opção para todos.

“Um equipamento maior ou com muitos comandos pode ajudar algumas pessoas e dificultar o uso para outras. Peso, empunhadura, facilidade de limpeza e capacidade de seguir as orientações do aparelho também devem ser considerados. Quanto mais complexa a condição bucal, mais importante é a orientação individual do cirurgião-dentista”, comenta Dra. Karina.

Cuidados no uso

Algumas situações exigem atenção especial antes da adoção desses dispositivos. Crianças pequenas e pessoas com dificuldade para cuspir ou controlar a deglutição, por exemplo, não devem utilizar enxaguantes bucais sem orientação profissional.

Pacientes em pós-operatório recente, com feridas na boca, sensibilidade intensa, dor, sangramento persistente ou alterações ao redor de implantes também devem consultar o cirurgião-dentista antes de utilizar equipamentos com jatos direcionados.

Embora a tecnologia possa facilitar a higiene, corrigir algumas falhas e contribuir para a adesão aos cuidados diários, ela não compensa uma rotina irregular ou uma técnica inadequada. Uma escova convencional bem utilizada pode proporcionar mais benefícios do que um equipamento sofisticado usado de maneira incorreta ou esporádica.

Para Dra. Karina, esse é o principal critério que deve orientar o consumidor. Para uma pessoa sem necessidades específicas, que escova corretamente os dentes, utiliza creme dental com flúor e realiza regularmente a limpeza dos espaços entre os dentes, as tecnologias adicionais podem oferecer principalmente conveniência, monitoramento e uma experiência de uso diferenciada.

A inovação pode ser uma aliada da saúde bucal, mas a sofisticação tecnológica, reforça a presidente do CROSP, não deve ser confundida com necessidade clínica.

Sobre o CROSP

O Conselho Regional de Odontologia de São Paulo (CROSP) é uma autarquia federal dotada de personalidade jurídica de direito público, responsável por fiscalizar e supervisionar o exercício ético da Odontologia em todo o Estado de São Paulo. Sua missão é zelar pelo adequado desempenho da profissão, contribuindo para a valorização da Odontologia e para a proteção da sociedade.

Atualmente, o CROSP conta com mais de 175 mil profissionais inscritos. Além dos cirurgiões-dentistas, o Conselho também fiscaliza o exercício profissional e a conduta ética dos Técnicos em Prótese Dentária, Técnicos em Saúde Bucal, Auxiliares em Saúde Bucal e Auxiliares em Prótese Dentária.

Mais informações:

www.crosp.org.br

foto: divulgação

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