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Movimento que incentiva o uso completo de cosméticos e outros produtos expõe uma contradição das redes sociais: enquanto o público busca consumo mais consciente, criadores são pressionados a acompanhar lançamentos e transformar novidades em conteúdo

Durante anos, as redes sociais ajudaram a transformar o lançamento de produtos em acontecimentos. Cosméticos, roupas, eletrônicos, restaurantes e tendências passaram a chegar ao público pelas mãos de influenciadores, que testam, recomendam e apresentam novidades em uma velocidade cada vez maior. Nesse cenário, consumir também se tornou uma forma de produzir conteúdo.

É justamente contra essa lógica de substituição constante que ganhou força o Project Pan, movimento que propõe utilizar um produto até o fim, ou chegar o mais próximo possível disso, antes de comprar outro. A tendência começou especialmente associada ao universo da beleza, mas passou a dialogar com uma discussão mais ampla sobre consumo consciente, desperdício, excesso e a relação emocional que as pessoas estabelecem com aquilo que compram.

Para quem trabalha com criação de conteúdo, entretanto, aderir a esse movimento pode representar um conflito. Afinal, como defender o consumo consciente em um ambiente profissional que muitas vezes recompensa a novidade? E como continuar sendo relevante quando a própria atividade do influenciador pode estar associada à apresentação constante de produtos?

Segundo a psicóloga Jhoanne Hansen, especialista em saúde mental de criadores de conteúdo, da Desvirtua, esse conflito não é apenas comercial. Ele também pode atingir a identidade e a percepção que o criador tem de si mesmo.

“O influenciador está o tempo todo negociando entre aquilo que ele realmente pensa e aquilo que o ambiente digital parece pedir dele. Quando a plataforma recompensa novidade, frequência e tendência, pode surgir uma sensação de que, para continuar relevante, ele precisa estar sempre consumindo e apresentando alguma coisa nova. O Project Pan pode funcionar justamente como um questionamento dessa lógica.”

1. O Project Pan questiona a lógica da novidade

A proposta do Project Pan é simples: escolher produtos que já estão em casa e estabelecer o compromisso de utilizá-los até o fim antes de substituí-los. No universo da beleza, isso pode significar terminar uma maquiagem, um perfume, um produto de skincare ou um cosmético antes de comprar outro semelhante.

A ideia, porém, vai além da economia. O movimento questiona a necessidade de adquirir continuamente algo novo quando o consumidor já possui produtos suficientes para atender às suas necessidades.

Para influenciadores, essa mudança pode ser particularmente significativa porque coloca em xeque um dos pilares da produção de conteúdo: a novidade como matéria-prima.

“Quando o novo deixa de ser automaticamente sinônimo de melhor, o criador pode começar a olhar para o próprio consumo de outra maneira. Isso pode gerar uma relação mais consciente com os produtos, mas também pode provocar insegurança, porque ele está inserido em uma cultura que frequentemente associa relevância à capacidade de acompanhar tudo o que está acontecendo.”

2. O consumo também virou conteúdo

Nas redes sociais, comprar deixou de ser apenas uma atividade privada. O consumo pode ser transformado em vídeo, resenha, unboxing, tutorial, comparação ou recomendação. Para muitos criadores, apresentar produtos faz parte do trabalho e pode estar diretamente relacionado a oportunidades comerciais.

A fronteira entre consumir porque se deseja algo e consumir porque aquilo pode gerar conteúdo, portanto, nem sempre é clara.

“Quando o consumo passa a fazer parte da profissão, ele ganha uma segunda função. O produto não é apenas algo que a pessoa deseja ou precisa, ele também pode representar uma oportunidade de trabalho, engajamento ou posicionamento. É importante que o criador consiga perceber quando está consumindo por uma necessidade real e quando está respondendo a uma pressão externa para produzir conteúdo.”

3. A autenticidade pode entrar em conflito com a publicidade

A palavra autenticidade se tornou uma das mais valorizadas no universo dos influenciadores. O público quer sentir que está acompanhando uma pessoa real, com opiniões próprias e experiências verdadeiras. Ao mesmo tempo, criadores são frequentemente convidados a divulgar produtos e lançamentos.

Esse paradoxo pode gerar uma tensão: quanto mais o influenciador precisa consumir para produzir conteúdo, maior pode ser a dificuldade de sustentar uma narrativa de consumo consciente.

“A autenticidade não significa que o criador precise rejeitar qualquer publicidade ou deixar de consumir. Ela está muito mais relacionada à coerência. Se ele defende uma postura de consumo consciente, mas aceita apresentar compulsivamente produtos que nem utiliza, pode surgir um conflito interno e também uma perda de credibilidade com o público. A questão é entender quais limites fazem sentido para aquela pessoa.”

4. O Project Pan pode ajudar a recuperar o vínculo com o que já existe

Em uma cultura marcada pelo excesso de estímulos, utilizar um produto até o fim pode parecer uma atitude pequena, mas envolve uma mudança de comportamento. Em vez de buscar constantemente a próxima novidade, a pessoa passa a observar aquilo que já possui, suas preferências e seus hábitos de consumo.

A arteterapeuta Juliana Nasasi, especialista em expressão criativa simbólica e processos terapêuticos voltados ao bem-estar emocional, da Desvirtua, explica que essa relação pode ter também uma dimensão simbólica.

“Existe algo muito potente em terminar aquilo que já temos antes de buscar outra coisa. O objeto deixa de ser apenas um produto e passa a carregar uma história de uso, escolha e experiência. Quando conseguimos perceber esse vínculo, podemos sair de uma lógica de substituição automática e voltar a perguntar o que realmente faz sentido para nós.”

5. A comparação nas redes pode estimular o consumo

Um dos mecanismos mais fortes das redes sociais é a comparação. O usuário observa o que outras pessoas compram, usam, vestem ou recebem e pode sentir que também precisa acompanhar aquele padrão.

Para os influenciadores, a comparação acontece em duas direções. Eles observam outros criadores e podem sentir que estão ficando para trás, enquanto o público compara suas próprias vidas com aquilo que vê na internet.

“O excesso de comparação pode criar a sensação de que sempre existe algo faltando. O criador vê outro influenciador com um produto novo e sente que precisa acompanhá-lo para não perder espaço. O público, por sua vez, pode interpretar aquela exposição como uma indicação de que também deveria comprar. O Project Pan interrompe essa lógica porque desloca a atenção da aquisição para a experiência com aquilo que já existe.”

6. Consumir menos também pode ser uma forma de criatividade

Para quem produz conteúdo, a redução do consumo pode parecer inicialmente um problema. Se não há um produto novo para apresentar, sobre o que falar? Mas a mudança também pode abrir espaço para formatos diferentes.

Em vez de mostrar apenas lançamentos, o criador pode explorar experiências, histórias, comparações, processos, memórias e diferentes maneiras de utilizar aquilo que já possui.

“A criatividade não nasce necessariamente da quantidade de objetos novos que temos, mas da maneira como conseguimos olhar para eles. Um mesmo produto pode ganhar significados diferentes dependendo da história, do contexto e da forma como é utilizado. Quando o criador deixa de depender exclusivamente da novidade, pode descobrir outras fontes de narrativa.”

7. O conflito pode revelar uma relação mais profunda com o consumo

O Project Pan não precisa ser encarado como uma regra rígida ou como uma competição para descobrir quem consegue consumir menos. Para as especialistas, o principal valor do movimento está na possibilidade de provocar uma reflexão sobre escolhas.

No caso dos influenciadores, essa reflexão pode ser ainda mais importante porque o consumo está ligado à própria atividade profissional e à construção de uma identidade pública.

“Não precisamos transformar o consumo consciente em mais uma cobrança. O objetivo não é criar uma nova performance de perfeição, em que a pessoa passa a se sentir culpada toda vez que compra alguma coisa. O mais saudável é perceber quais são os padrões que estão por trás daquele consumo e perguntar se eles realmente correspondem aos nossos valores.”

Para Jhoanne Hansen, essa reflexão também pode ajudar o criador a estabelecer uma relação mais sustentável com o próprio trabalho.

“Quando o influenciador consegue reconhecer que não precisa estar presente em toda tendência para continuar sendo relevante, ele começa a recuperar autonomia. Isso pode diminuir a sensação de urgência e permitir que ele escolha melhor os trabalhos, os produtos e os conteúdos que realmente têm relação com sua identidade.”

Entre o consumo e a autenticidade

O crescimento do Project Pan revela uma transformação na maneira como parte do público se relaciona com o consumo. Em vez da ideia de que sempre existe uma novidade melhor esperando para ser comprada, o movimento propõe experimentar, utilizar e valorizar aquilo que já está disponível.

Nas redes sociais, essa mudança ganha uma dimensão particular. O influenciador não é apenas consumidor, mas também produtor de discursos sobre consumo. Ao mesmo tempo em que pode ser pressionado a divulgar lançamentos, precisa construir uma relação de confiança com uma audiência cada vez mais atenta à coerência entre discurso e prática.

“O grande desafio para o criador não é escolher entre consumir muito ou consumir pouco. É construir uma relação consciente com o próprio consumo e entender o que ele representa dentro da sua vida e do seu trabalho. Quando existe coerência entre o que a pessoa acredita, o que divulga e o que pratica, a autenticidade deixa de ser uma estratégia de conteúdo e passa a ser uma característica real da comunicação”, afirma Jhoanne.

Juliana Nasasi acrescenta que essa mudança também pode abrir espaço para uma relação mais criativa e menos automática com os objetos.

“Talvez a grande provocação do Project Pan seja nos perguntar por que precisamos tanto do próximo produto. Quando conseguimos permanecer um pouco mais com aquilo que já temos, podemos descobrir usos, histórias e significados que estavam escondidos pela pressa de substituir. Isso vale para os objetos, mas também pode valer para a própria maneira como construímos nossa identidade.”

No fim, o Project Pan pode ser menos sobre terminar um batom, um perfume ou um hidratante e mais sobre perceber quando o desejo de consumir nasce de uma necessidade real e quando é alimentado pela lógica de um ambiente que nunca deixa de apresentar a próxima novidade.

Sobre as especialistas

Jhoanne Hansen é psicóloga e especialista em saúde mental de criadores de conteúdo, com atuação voltada aos impactos emocionais, comportamentais e psicológicos relacionados à exposição e à dinâmica das redes sociais. Integra a Desvirtua, empresa dedicada ao bem-estar digital e à saúde mental de pessoas que vivem ou trabalham no ambiente digital.

Juliana Nasasi é bióloga e arteterapeuta, especialista em expressão criativa simbólica e processos terapêuticos voltados ao bem-estar emocional. Também integra a Desvirtua, utilizando a criatividade e a expressão simbólica como ferramentas de reflexão e cuidado emocional.

foto: divulgação

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