Estimativas mostram que o número de novos casos de câncer colorretal deve ter crescimento de 21% entre 2030 e 2040
A medicina personalizada e de precisão vem ganhando cada vez mais espaço em diversas especialidades, inclusive na coloproctologia. A expectativa é de expansão no uso de testes genéticos, análise do perfil molecular tumoral — incluindo mutações específicas e instabilidade de microssatélites —, marcadores inflamatórios avançados, investigação da microbiota intestinal e ferramentas preditivas capazes de ajustar terapias de forma individualizada. Esse avanço representa um passo importante na prevenção, no diagnóstico precoce e no tratamento de câncer de cólon e de reto.
Segundo o estudo “Câncer colorretal no Brasil – O desafio invisível do diagnóstico”, da Fundação do Câncer, dos 177 mil casos de câncer colorretal registrados em hospitais públicos e privados do Brasil entre 2013 e 2022, mais de 60% foram diagnosticados em estágios avançados da doença (III e IV), o que impacta negativamente as chances de cura e reforça a importância do rastreamento.
Estimativas da mesma instituição indicam que o número de novos casos de câncer colorretal deve crescer cerca de 21% entre 2030 e 2040. Esse tipo de tumor já está entre os mais incidentes no país, segundo o Instituto Nacional do Câncer (INCA).
A coloproctologia vem incorporando avanços tecnológicos aliados à evolução científica e ao foco crescente na qualidade de vida dos pacientes. Isso tem impulsionado mudanças importantes na forma de diagnosticar, acompanhar e tratar doenças do intestino grosso, reto e ânus.
Entre as principais inovações, destacam-se o uso da cirurgia robótica, da inteligência artificial, da medicina de precisão, das terapias moduladas pela microbiota e de técnicas cada vez menos invasivas, especialmente no cuidado com pacientes oncológico. A tendência é uma especialidade mais precisa, personalizada e integrativa, com impacto direto na análise de dados, interpretação de exames, escolha terapêutica e acompanhamento da jornada do paciente.
IA amplia capacidade diagnóstica
Nesse cenário, a inteligência artificial (IA) tem sido cada vez mais utilizada na análise de imagens de colonoscopia em tempo real, auxiliando na detecção precoce de pólipos e lesões precursoras do câncer. Estudos recentes demonstram evidências consistentes de aumento da taxa de detecção de adenomas (ADR), um dos principais indicadores de qualidade da colonoscopia, o que pode impactar diretamente na prevenção do câncer colorretal.
Nas doenças inflamatórias intestinais, algoritmos de IA vêm sendo estudados para ajudar a prever exacerbações, identificar padrões inflamatórios e apoiar decisões clínicas mais individualizadas, embora essa aplicação ainda esteja em evolução. Na avaliação de fístulas anais por ressonância magnética, a tecnologia também contribui para maior precisão diagnóstica e melhor planejamento terapêutico.
Robótica em procedimentos complexos
Com o desenvolvimento de equipamentos mais compactos, braços robóticos mais precisos e maior disseminação das plataformas, a tendência é que procedimentos complexos — como cirurgias para câncer colorretal, endometriose intestinal e fístulas anais profundas — sejam cada vez mais realizados com assistência robótica.
Além disso, há avanços importantes no treinamento dos profissionais, com foco no refinamento técnico e na padronização de protocolos, o que torna os procedimentos mais seguros e previsíveis. Entre os benefícios observados estão menor perda sanguínea, recuperação mais rápida e redução de complicações pós-operatórias. No entanto, até o momento, não há evidência consistente de superioridade em desfechos oncológicos de longo prazo em relação à laparoscopia convencional.
Cirurgias menos invasivas
A evolução das técnicas minimamente invasivas também segue em expansão. A laparoscopia — que utiliza pequenas incisões e uma microcâmera para visualização interna — tornou-se ainda mais precisa, com instrumentos menores e melhor tecnologia de imagem.
Procedimentos endoscópicos terapêuticos, como as ressecções mucosas e submucosas, tendem a se ampliar, permitindo o tratamento de lesões precoces sem a necessidade de cirurgia convencional. Para o paciente, isso se traduz em abordagens menos agressivas, com menos dor, menor risco de infecção e alta hospitalar mais precoce.
Pesquisas mais aprofundadas
O estudo da microbiota intestinal deve avançar significativamente nos próximos anos. Novas abordagens terapêuticas baseadas na modulação bacteriana — incluindo probióticos de nova geração, transplante de microbiota fecal mais padronizado e fármacos direcionados ao ecossistema intestinal — estão em desenvolvimento, mas ainda não fazem parte da prática clínica rotineira na maioria dos cenários.
Essas estratégias têm impacto direto no manejo das doenças inflamatórias intestinais, da síndrome do intestino irritável e de infecções recorrentes, além de possíveis efeitos em condições extraintestinais associadas ao microbioma. Há também potencial impacto na resposta à imunoterapia, embora essa relação ainda esteja em investigação.
Radioterapia Estereotáxica Ablativa
A Radioterapia Estereotáxica Ablativa, também conhecida como SBRT (do inglês Stereotactic Body Radiation Therapy), é considerada uma das modalidades mais avançadas de radioterapia. Trata-se de uma técnica que permite a administração de altas doses de radiação com grande precisão em um número reduzido de sessões, geralmente entre uma e cinco aplicações.
O tratamento é altamente direcionado ao tumor, poupando os tecidos saudáveis ao redor. Por isso, pode ser uma opção eficaz principalmente em cenários de doença oligometastática, como metástases hepáticas e pulmonares, ou em pacientes que não são candidatos à cirurgia. A técnica utiliza sistemas avançados de imagem, como tomografia computadorizada integrada ao equipamento de radioterapia, garantindo maior acurácia.
Terapia Neoadjuvante Total (TNT)
Diversos estudos robustos demonstram que a Terapia Neoadjuvante Total (TNT) pode reduzir a necessidade de amputação do esfíncter anal e o uso permanente de colostomia em pacientes com câncer retal.
A TNT é uma estratégia terapêutica moderna indicada principalmente para câncer retal localmente avançado. Ela consiste na intensificação do tratamento antes da cirurgia, combinando quimioterapia sistêmica e quimiorradioterapia. O objetivo é reduzir o tamanho do tumor e possíveis focos microscópicos de doença, aumentar as taxas de resposta tumoral, melhorar a chance de preservação do esfíncter anal e potencialmente aumentar a sobrevida.
Estudos clínicos recentes também demonstram aumento significativo das taxas de resposta completa e redução do risco de recorrência sistêmica, além de menor necessidade de colostomia definitiva em pacientes selecionados.
Combinação de medicamentos de imunoterapia
As principais agências regulatórias mundiais, como o Food and Drug Administration (FDA), já aprovaram estratégias de imunoterapia para o tratamento de pacientes com câncer colorretal avançado.
A combinação de nivolumabe (Opdivo) com ipilimumabe (Yervoy) é uma das opções terapêuticas para pacientes cujos tumores apresentam instabilidade de microssatélites alta (MSI-H) ou deficiência no sistema de reparo de DNA (dMMR). Esses tumores apresentam maior carga mutacional e, por isso, tendem a responder melhor à imunoterapia. Em muitos casos, terapias com anti-PD-1 em monoterapia também já são consideradas padrão inicial, sendo a combinação reservada para cenários específicos ou pacientes selecionados.
Estilo de vida
O câncer colorretal está fortemente associado a fatores relacionados ao estilo de vida, como alimentação inadequada, sedentarismo, obesidade e tabagismo. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, o consumo de carnes processadas apresenta associação consistente com aumento do risco da doença, enquanto o consumo elevado de carnes vermelhas também está associado a maior risco.
Além disso, histórico familiar, doenças inflamatórias intestinais crônicas (como retocolite ulcerativa e doença de Crohn) e presença de pólipos intestinais são fatores de risco importantes.
A recomendação atual é que indivíduos sem fatores de risco iniciem o rastreamento para câncer colorretal aos 45 anos, conforme diretrizes internacionais recentes, como as da American Cancer Society. Já pessoas com histórico familiar ou outros fatores de risco devem iniciar a investigação mais precocemente, de forma individualizada, aumentando as chances de diagnóstico precoce e cura.
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