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A IA está criando uma geração de “especialistas sem formação”, com poder para fazer contratos, análises e campanhas sem saber medir o risco do próprio resultado

A inteligência artificial generativa passou a interferir diretamente na forma como brasileiros trabalham, produzem e tomam decisões. Quase 30 milhões de trabalhadores no Brasil estão em ocupações com algum grau de exposição à IA generativa, o equivalente a 29,6% da população ocupada, enquanto cerca de 5,2 milhões estão no grupo de maior exposição. O avanço também já aparece nas empresas: 63% das médias e grandes companhias usam IA nos negócios, percentual que cai para 46% nas micro e pequenas empresas e 42% entre MEIs. A tecnologia está reduzindo a necessidade de domínio técnico para conseguir produzir algo com aparência profissional. Pessoas sem formação jurídica elaboram contratos, usuários sem conhecimento financeiro simulam carteiras de investimento, profissionais sem fluência traduzem textos técnicos e criadores sem experiência produzem trilhas, imagens e campanhas. A IA está dando a pessoas comuns uma capacidade de produzir resultados que antes dependiam de especialistas. De fato isso vai ampliar muito a capacidade produtiva e de entrega de valor em diferentes setores da economia. As empresas e as pessoas devem se preparar para esse novo ambiente. Além dos benefícios possíveis, deve-se observar também os riscos associados, como transformar acesso à ferramenta em sensação de competência e reduzir a massa crítica para avaliar a eficácia e impacto do resultado.

Para Celso Camilo, professor de Inteligência Artificial da Universidade Federal de Goiás, o avanço exige uma leitura otimista e também cuidadosa. “A inteligência artificial está empoderando os leigos com resultados de especialistas. Isso é um avanço significativo na aceleração e democratização de resultados. Mas exige uma cautela, pois existe uma diferença entre gerar uma resposta e compreender se ela está correta, segura e adequada ao contexto. O leigo pode conseguir montar um contrato, mas talvez não perceba uma cláusula abusiva. Pode pedir uma análise de investimento, mas pode não entender o risco da decisão. Pode pedir um diagnóstico, mas pode não saber das questões sistêmicas envolvidas na patologia. O grande desafio não é a IA fazer mais, mas é o ser humano saber mais para supervisionar, confiar e questionar.”, afirma. A nova fronteira, portanto, não está apenas no uso da ferramenta, mas na capacidade de integrar e interpretar o que ela entrega. Milhões de pessoas já conseguem executar tarefas sofisticadas em minutos, mas continuam sem método para diferenciar um resultado útil de uma resposta correta. Até que os modelos consigam um grau de excelência operacional, os saberes humanos ainda são determinantes para o resultado.

Esse movimento também começa a redesenhar o valor do trabalho especializado. Durante décadas, a diferença entre um leigo e um profissional era grande e aparecia no domínio técnico, no repertório acumulado e na capacidade de execução. Agora, parte dessa distância foi comprimida por ferramentas que escrevem, traduzem, programam, editam imagens, simulam cenários e estruturam documentos. Isso não elimina o especialista, mas muda o centro da disputa. Atividades intermediárias, como textos simples, apresentações, peças visuais, análises preliminares, contratos padronizados e atendimento operacional, passam a ser feitas com menos barreira de entrada. O diferencial profissional tende a migrar da execução para a curadoria, da entrega simples para a estratégia e da produção para a responsabilidade sobre a decisão final.

A tendência é que esse dilema ganhe força em 2026 e nos próximos anos, à medida que a IA deixa de ser usada apenas em tarefas simples e avança sobre áreas mais sensíveis. No Brasil, o debate é ainda mais relevante porque a adoção ocorre de forma desigual entre grandes empresas, pequenos negócios, trabalhadores formais, autônomos e jovens em funções de entrada. “O futuro do trabalho não será dividido entre quem usa IA e quem não usa. A divisão será entre quem sabe usar IA com critério e quem apenas terceiriza o pensamento para uma máquina. A tecnologia pode empoderar leigos, mas não substitui julgamento, responsabilidade e conhecimento de domínio. O maior risco é confundir acesso com competência. A IA deve ampliar a capacidade humana, não criar uma geração de pessoas que tomam decisões bonitas por fora e frágeis por dentro”, afirma Celso Camilo.

Sobre Celso Camilo

Celso Camilo é Mestre e Doutor em Inteligência Artificial, professor associado da Universidade Federal de Goiás (UFG). Com trajetória acadêmica e internacional consolidada, foi professor visitante na Carnegie Mellon University (EUA) entre 2015 e 2016, no Indian Institute of Technology Gandhinagar (Índia) em 2022 e na Mohamed bin Zayed University of Artificial Intelligence (MBZUAI), nos Emirados Árabes Unidos, além de representar o Brasil em fóruns globais de inovação e tecnologia.

Atua como pesquisador, consultor e palestrante, com destaque para a apresentação realizada na NASA (JPL, em Los Angeles), e coordena o desenvolvimento da GAIA, a primeira inteligência artificial aberta especializada em português. Sua atuação também se estende ao setor privado, onde contribui como conselheiro em empresas de diferentes segmentos, como transporte, educação, mercado imobiliário e venture capital, conectando tecnologia e estratégia de negócios.

No setor público, acumulou experiência em posições estratégicas, tendo sido Secretário de Desenvolvimento Econômico, Trabalho, Ciência e Tecnologia de Goiânia e Subsecretário de Tecnologia da Informação do Estado de Goiás, com foco na implementação de políticas e projetos voltados à inovação, digitalização e desenvolvimento econômico

Foto de AltumCode na Unsplash

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