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Especialista explica diferenças entre cerâmica fria e cerâmica de alta temperatura

Antes de existir vidro, metal ou plástico, a humanidade já moldava o barro. A cerâmica está entre as tecnologias mais antigas da história, com registros que remontam a mais de 20 mil anos. Desde então, um elemento permanece inegociável no processo: o fogo. Ainda hoje, é ele quem determina se uma peça será apenas barro seco ou cerâmica de fato.

Por isso, uma dúvida comum entre iniciantes e curiosos surge com frequência: é possível queimar cerâmica no forno de casa? A resposta, segundo a artista ceramista Maria Angélica, do ateliê AlmaMia, é direta: não. Entender esse “não” ajuda a diferenciar dois universos que costumam ser confundidos, a cerâmica fria e a cerâmica de alta temperatura.

Maria Angélica explica que a cerâmica tradicional depende de transformações físicas e químicas que só acontecem em altíssimas temperaturas, muito além da capacidade de qualquer forno doméstico. “A cerâmica não é apenas secagem. É um processo de mudança estrutural do material. Um forno de casa não chega nem perto das temperaturas necessárias para isso acontecer”.

Em Curitiba – PR, no ateliê AlmaMia, esse processo acontece em fornos profissionais. O principal deles é um Skutt, marca alemã reconhecida internacionalmente como referência em tecnologia para cerâmica artística.

“Nosso forno principal é o Skutt 1231 PK, o maior modelo da marca e o coração da produção do ateliê”. O espaço também conta com um segundo forno, da Stecno, marca nacional, de menor porte, utilizado para produções específicas. Ambos atingem temperaturas de até 1.300 °C.

A artista explica que a cerâmica passa por etapas fundamentais de queima. A primeira é a queima de biscoito, realizada em torno de 1.000 °C. Nesse estágio, a peça perde a umidade residual, ganha resistência e se torna cerâmica, mas ainda permanece porosa. Só depois vem a queima de alta temperatura, responsável pela vitrificação do esmalte, pela impermeabilidade e pela durabilidade da peça.

É justamente esse processo que diferencia a cerâmica tradicional da chamada cerâmica fria, bastante popular em projetos de artesanato e DIY. A cerâmica fria utiliza massas sintéticas ou resinas que secam ao ar ou com calor baixo, sem passar por queima real. “Ela não sofre as transformações químicas da cerâmica. São materiais, finalidades e resultados completamente diferentes”, reforça Maria Angélica.

Enquanto a cerâmica fria atende propostas decorativas e experimentais, a cerâmica de alta temperatura envolve conhecimento técnico, controle preciso de curvas de aquecimento, equipamentos adequados e leitura de cones pirométricos. “A queima não é um detalhe do processo, ela é o processo. É no forno que a peça realmente nasce”, resume ela.

Para quem deseja se aprofundar na cerâmica artística, o caminho passa inevitavelmente por ateliês especializados, estudo contínuo e respeito a uma técnica que atravessa milênios, mas continua exigindo precisão, paciência e fogo na medida certa.

fotos: Mel Maia

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