Especialistas alertam que inconsistências nos dados ambientais já são tratadas como infração grave por órgãos reguladores e podem afetar contratos, reputação e valor de mercado
O greenwashing deixou de ser apenas uma falha de comunicação para se tornar uma prática tratada como potencialmente criminosa em diversos países, e o Brasil segue a mesma tendência. A onda de sanções aplicadas nas últimas semanas deixou claro que alegações ambientais imprecisas não serão mais toleradas por reguladores, consumidores e investidores.
Campanhas de marcas como Nike, Lacoste e Superdry foram proibidas no Reino Unido por informações ambientais sem comprovação; no Brasil, o Idec acionou a Gol na Justiça por propaganda ambiental enganosa; e o Conar reforçou as regras para coibir greenwashing, após o avanço das denúncias.
Esse movimento acende alerta para empresas de todos os setores. O risco de apresentar dados errados sobre carbono, reciclagem, resíduos ou compromissos climáticos passou a envolver responsabilidade jurídica, além de danos reputacionais e financeiros.
Greenwashing já é analisado, em muitos casos, sob a ótica de omissão, fraude informacional e violação de normas ambientais.
“Quando uma empresa divulga informações ambientais sem evidências, ela não comete apenas um erro de comunicação. Dependendo do impacto, isso pode configurar infração regulatória ou até prática enganosa, sujeita a sanções e processos”, afirma a especialista no assunto Fernanda Amaral, gerente territorial da multinacional Achilles.
Ela destaca que o aumento da fiscalização vem de todos os lados, investidores, órgãos reguladores, entidades de defesa do consumidor e até concorrentes.
“A pressão para anunciar metas ambientais rapidamente fez muitas empresas comunicarem avanços sem ter clareza ou rastreabilidade dos dados. Quando essas informações são contestadas, o risco é enorme.”
Fiscalização mais dura e dados frágeis
O novo cenário coloca em risco empresas que:
- anunciam metas climáticas sem metodologia comprovada,
- divulgam reduções de carbono sem trilhas de evidência,
- usam expressões como “sustentável”, “verde” ou “neutro em carbono” sem respaldo técnico,
- ou não têm governança climática estruturada.
Segundo Fernanda, a maioria dos casos de greenwashing não nasce da má intenção, mas de falhas internas de governança, o que não impede punição.
“As empresas precisam entender que, hoje, greenwashing não é só uma gafe. É um risco jurídico real. Falta padronização, falta validade, falta controle. Sem dados sólidos, qualquer afirmação pode ser considerada enganosa”, reforça.
A era da transparência estruturada
Empresas que querem se proteger precisam fortalecer seus sistemas de coleta, validação e rastreabilidade de dados ESG. Auditorias independentes, padronização de cálculos de carbono e revisão de campanhas passam a ser exigências básicas, não diferenciais.
Fernanda Amaral avalia que esse movimento representa uma mudança positiva na governança corporativa. “As empresas estão percebendo que a organização das evidências e a clareza dos dados reduzem incertezas e fortalecem a credibilidade. Não se trata de punição, mas de apoiar decisões mais responsáveis e prevenir questionamentos que poderiam ser evitados”, conclui.


