Pesquisa identifica danos celulares, estresse oxidativo e morte celular antes mesmo do aquecimento dos líquidos utilizados em cigarros eletrônicos
A Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), em parceria com a Universidade Federal do Rio Grande (FURG), acaba de divulgar o estudo “Toxicological evaluation of vape liquids circulating in Brazil: Evidence of emerging hazards”, publicado na conceituada revista Toxicology (FI 4,6), primeira análise abrangente realizada no país sobre a toxicidade de líquidos de cigarros eletrônicos disponíveis no mercado ilegal brasileiro. Os resultados revelam evidências inéditas sobre a toxicidade, reforçando a urgência de ações coordenadas entre profissionais de saúde, educadores, famílias e gestores públicos.
O trabalho foi realizado pelos pesquisadores Carlos Leonny Fragoso, Anna de Falco e Adriana Gioda, do Laboratório de Química Atmosférica (LQA), departamento de Química da PUC-Rio; e por Eduarda Santa-Helena e Carolina Rosa Gioda, da Universidade Federal do Rio Grande (FURG).
A pesquisa avaliou líquidos comercializados no Brasil — incluindo produtos nacionais e itens contrabandeados do Paraguai, China, Estados Unidos e Europa — e constatou que todos já apresentam toxicidade antes mesmo de serem aquecidos, etapa necessária para gerar o aerossol inalado pelos usuários. Foram observados diminuição da viabilidade celular, estresse oxidativo, perda de integridade de membrana e morte celular, especialmente em formulações que continham aditivos e nicotina oxidada.
Para a professora Adriana Gioda, coordenadora do LQA e do estudo, os resultados trazem um alerta importante. “O que encontramos indica que o problema é ainda maior do que se imaginava. Esses líquidos, mesmo antes de passar pelo aquecimento, já provocam efeitos tóxicos significativos nas células. Isso desmonta a ideia de que os vapes seriam uma alternativa mais segura ao cigarro convencional. Estamos diante de riscos emergentes que precisam ser conhecidos pela população e enfrentados com políticas públicas mais firmes”, explicou.
A venda de cigarros eletrônicos é proibida no Brasil desde 2009, com restrições reforçadas em 2024 pela Resolução nº 855 da Anvisa. Apesar disso, o consumo — especialmente entre jovens — continua em alta, impulsionado pela entrada de produtos que não passam por qualquer controle sanitário.
Metodologia e resultados
O estudo utilizou amostras lacradas obtidas com usuários e aplicou dois modelos in vitro — leveduras e células cardíacas de ratos (H9c2) — para avaliar viabilidade celular, estresse oxidativo e integridade de membrana. Entre os principais achados:
- Toxicidade variável conforme origem e composição, com maiores índices nas amostras do Paraguai e EUA;
- Queda acentuada da viabilidade celular a partir de 0,625 %m/v;
- Aumento expressivo de espécies reativas de oxigênio (ROS), associado à redução da atividade da enzima catalase;
- Indução de citotoxicidade e danos celulares identificados pela liberação de LDH;
- Composição química e contração foram os principais fatores de risco, independente da origem.
Esses resultados estão de acordo com o reportado internacionalmente, sobre os efeitos do uso de vape a saúde (processo inflamatório, problemas respiratórios ou circulatórios).
Segundo o Dr Carlos Leonny, responsável pelos estudos experimentais, os dados reforçam que há um conjunto de riscos ainda pouco discutidos no Brasil. “A toxicidade observada está ligada à combinação de solventes, aromatizantes e modificações químicas da nicotina. A população está sendo exposta a misturas sem qualquer controle ou transparência. O cenário exige ciência, fiscalização e informação de qualidade”, afirma.
Os problemas a curto prazo já são observados na população e reportado por profissionais de saúde enquanto os efeitos a longo prazo ainda não são conhecidos mundialmente, devido ao pouco tempo de observação.
Para os autores, os resultados reforçam a necessidade de avaliações toxicológicas mais amplas, políticas públicas atualizadas combate e ações de comunicação voltadas à prevenção, especialmente entre adolescentes e jovens adultos — principal grupo de risco no país.
Sobre a PUC-Rio
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