Por Claudia Mesquita
O mercado de ações brasileiro atravessa um momento de fortes contrastes. De um lado, os indicadores macroeconômicos apontam resiliência, com taxa de desemprego em mínimas históricas e um fluxo recorde de capital estrangeiro para a B3. De outro, juros reais ainda muito elevados, incertezas fiscais e menor apetite do investidor local dificultam novos aportes e mantêm a janela de IPOs fechada pelo quarto ano seguido.
Com juros reais na casa dos 10% — os mais altos do mundo — e projeções modestas de crescimento do PIB (2% em 2025 e 1,5% em 2026), o país vive uma combinação de custo de capital elevado e déficit fiscal crescente. A dívida pública, que deve saltar de 71,7% para 83,3% do PIB em quatro anos, reforça a percepção de “dominância fiscal” e pressiona expectativas. O resultado é um ambiente mais restritivo para investimentos privados e novas emissões de ações.
Setores avançam em ritmos diferentes
Essa realidade se reflete na economia. O agronegócio, mesmo com uma supersafra, sente o impacto da queda nos preços das commodities e do aumento dos pedidos de recuperação judicial. No mercado imobiliário, programas habitacionais mantêm aquecido o segmento de baixa renda, enquanto empreendimentos premium seguem esgotando rapidamente. Já o consumo de massa perde fôlego com crédito mais caro. Varejo, indústria e crédito consignado privado frustraram expectativas, enquanto nichos como tecnologia e serviços por aplicativos concentram a criação de empregos.
Mercado de capitais: seca de IPOs, mas fluxo estrangeiro recorde
A última abertura de capital na B3 ocorreu em agosto de 2021. Desde então, fundos de ações enfrentam resgates significativos e não têm absorvido novas ofertas. Ao mesmo tempo, a bolsa bateu recordes históricos e superou os 145 mil pontos em setembro de 2025, impulsionada por mais de R$ 20 bilhões em aportes líquidos de estrangeiros — o maior saldo para um primeiro semestre desde 2022. Grandes privatizações recentes mostram que há apetite por ativos brasileiros de qualidade, mesmo em um ambiente interno adverso.
Perspectivas para 2025 e projeções para 2026
Para os últimos meses de 2025, a expectativa é de continuidade desse quadro: juros elevados, lucros pressionados e volatilidade extra do cenário internacional. Ainda assim, valuations descontados — com o Ibovespa negociando abaixo da média histórica de preço/lucro — e empresas sólidas que remuneram acionistas com dividendos e recompras sustentam um viés mais defensivo nas carteiras, com destaque para setores como alta renda no imobiliário, transporte, saúde e varejo discricionário.
Para 2026, instituições financeiras projetam o Ibovespa entre 170 mil e 189 mil pontos, podendo chegar a 200 mil se houver ajuste fiscal consistente. Três fatores embasam esse otimismo: múltiplos atrativos (7,2 vezes o lucro estimado para 2026, 28% abaixo da média histórica), expectativa de cortes de juros e fundamentos corporativos positivos.
Riscos e oportunidades
Os riscos para esse cenário incluem incertezas fiscais e políticas — especialmente com a proximidade das eleições —, um ambiente externo mais protecionista e eventual queda nos preços das commodities. Por outro lado, a redução da Selic para patamares próximos a 12% e a continuidade do fluxo estrangeiro podem destravar valorizações adicionais e reabrir a janela para IPOs, represados há quatro anos.
O mercado de equities no Brasil vive um momento em que desafios internos — juros altos, déficit fiscal e baixa confiança — convivem com oportunidades de longo prazo sustentadas por valuations atrativos e crescente participação estrangeira. Para investidores, o momento pede seletividade e visão de médio e longo prazo. Se o país avançar no ajuste fiscal e o ambiente externo colaborar, 2026 pode marcar uma retomada mais robusta do mercado de ações brasileiro.
Claudia Mesquita é associada do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças de São Paulo (IBEF-SP).
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